domingo, 6 de setembro de 2026

Soberania e Defesa: Por Que a Independência Tecnológica e a Previsibilidade Orçamentária São o Verdadeiro 7 de Setembro

 

Em 7 de setembro de 1822, o Brasil rompeu politicamente com Portugal e iniciou uma nova etapa de sua história como Estado independente. Mais de dois séculos depois, a independência permanece como um dos fundamentos da formação nacional, mas o conceito de soberania que orienta as grandes potências do século XXI tornou-se muito mais amplo do que aquele associado exclusivamente ao exercício da autoridade sobre um território. A capacidade de decidir os próprios caminhos continua sendo o elemento central, porém essa liberdade de decisão depende cada vez mais de fatores que não aparecem necessariamente nas fronteiras de um país: domínio tecnológico, capacidade industrial, acesso a matérias-primas estratégicas, segurança energética, infraestrutura, conhecimento científico, capacidade de sustentar sistemas críticos e resiliência diante de rupturas nas cadeias internacionais de fornecimento.

Essa transformação altera também a forma como o Brasil precisa olhar para sua própria defesa. No ambiente internacional onde tecnologia, indústria e recursos naturais passaram a integrar diretamente a disputa por poder, possuir Forças Armadas equipadas não significa, por si só, possuir autonomia estratégica. Um sistema de defesa pode ser extremamente sofisticado e continuar dependente de componentes, software, sensores, motores, munições, materiais especiais, serviços de manutenção ou atualizações controlados por fornecedores externos. Em condições normais, essa dependência pode ser administrável e fazer parte de uma relação internacional perfeitamente legítima. O problema aparece quando uma capacidade considerada essencial passa a depender de uma cadeia sobre a qual o Estado brasileiro não possui qualquer controle ou alternativa, justamente no momento em que as condições políticas ou estratégicas tornam o acesso a essa cadeia incerto.

É por isso que soberania tecnológica não deve ser confundida com autossuficiência. Nenhum país moderno produz sozinho tudo aquilo de que necessita, e seria economicamente irracional tentar reproduzir internamente todas as cadeias industriais existentes no mundo. A questão estratégica é estabelecer uma hierarquia de dependências, identificando quais tecnologias, materiais, componentes e processos podem ser obtidos no exterior sem comprometer a liberdade de ação brasileira e quais precisam ser dominados, produzidos ou mantidos por meio de alternativas nacionais ou de parcerias suficientemente diversificadas. Quanto mais crítica for uma capacidade para a segurança, a economia ou o funcionamento do Estado, maior precisa ser a preocupação com a possibilidade de preservá-la em um cenário adverso.

O Brasil já construiu parte importante dessa capacidade ao longo de décadas. A indústria aeronáutica, os programas navais, o setor nuclear, as competências espaciais, a indústria de defesa e diferentes núcleos de excelência científica e tecnológica demonstram que o país possui conhecimento e recursos humanos capazes de atuar em áreas de elevada complexidade. O problema é que essas competências ainda podem ser vistas como ilhas de excelência que nem sempre estão conectadas por cadeias suficientemente robustas. O Brasil pode dominar uma determinada plataforma, mas depender de fornecedores externos para componentes críticos; pode possuir universidades e centros de pesquisa capazes de desenvolver determinada tecnologia, mas não encontrar escala industrial para transformá-la em produto; pode dispor de enormes reservas minerais e simultaneamente, importar materiais de maior valor agregado produzidos a partir dos próprios recursos brasileiros.

Transformar essas ilhas em um arquipélago de capacidades é um dos grandes desafios estratégicos brasileiros para as próximas décadas. Isso significa fazer com que mineração, indústria, ciência, tecnologia, Defesa, energia, espaço, infraestrutura e política externa deixem de ser tratadas como agendas independentes e passem a funcionar dentro de uma visão mais integrada de desenvolvimento e segurança nacional. Uma cadeia de defesa, por exemplo, não começa necessariamente na fábrica que monta o equipamento e tampouco termina quando o sistema é entregue às Forças Armadas. Ela começa na formação do profissional, passa pela pesquisa, pelos materiais, pela eletrônica, pelo software, pelos fornecedores, pela produção, pela integração e pela manutenção, e pode continuar posteriormente por meio de modernizações, exportações e desenvolvimento de novas gerações de produtos.

É justamente nessa perspectiva que a Base Industrial de Defesa precisa ser compreendida. Ela não representa apenas um conjunto de empresas contratadas pelo Estado para fornecer equipamentos militares, mas uma concentração de conhecimento, infraestrutura, mão de obra especializada e capacidade produtiva que pode levar décadas para ser construída. Quando uma empresa desenvolve um radar, um sistema de comunicação, um veículo, um sensor, uma aeronave ou uma solução de guerra eletrônica, o resultado não está apenas no equipamento entregue ao usuário militar. Existe uma camada menos visível de engenharia, processos produtivos, propriedade intelectual, experiência acumulada e formação de profissionais que permanece no país e pode alimentar projetos posteriores.

Quando essa estrutura é desmobilizada, portanto, o prejuízo não pode ser medido apenas pela quantidade de equipamentos que deixou de ser produzida naquele período. Uma cadeia de fornecedores pode desaparecer, profissionais especializados podem migrar para outras atividades, centros de pesquisa podem perder equipes e linhas de desenvolvimento, empresas podem deixar de investir e conhecimentos específicos podem deixar de ser transmitidos para uma nova geração. Quando o Estado decide retomar determinado projeto anos depois, frequentemente não encontra a mesma estrutura industrial esperando para simplesmente voltar a funcionar. Parte dela precisa ser reconstruída, muitas vezes a um custo superior ao que teria sido necessário para preservar sua continuidade.

Essa realidade coloca a previsibilidade orçamentária no centro da discussão sobre soberania. A Política Nacional de Defesa e a Estratégia Nacional de Defesa já reconhecem a importância da adequabilidade, regularidade e previsibilidade dos recursos destinados às capacidades estratégicas. Não se trata de estabelecer uma espécie de proteção especial para a Defesa diante das demais políticas públicas, mas de reconhecer uma característica objetiva de programas que envolvem desenvolvimento tecnológico e construção de capacidade industrial: seus ciclos são longos, os investimentos são elevados e os resultados dependem da continuidade.

Previsibilidade também não significa ausência de controle. Programas estratégicos precisam estar submetidos a metas, cronogramas, indicadores, governança, transparência e avaliação permanente. Recursos públicos não devem ser mantidos indefinidamente em projetos que não apresentem resultados compatíveis com os objetivos estabelecidos. Da mesma maneira, mudanças de cenário podem exigir revisão de prioridades, redimensionamento de projetos ou substituição de determinadas soluções. A questão é que essas decisões precisam ser planejadas, porque existe uma diferença considerável entre reorganizar uma política estratégica e simplesmente interrompê-la por falta de previsibilidade financeira.

O debate, portanto, não deveria ser reduzido à pergunta sobre quanto o Brasil precisa gastar com Defesa. A questão mais relevante é quanto custa construir determinada capacidade e quanto o Estado poderá perder se permitir que ela seja interrompida antes de alcançar maturidade. Em determinados casos, a economia obtida pela redução de recursos em um exercício pode produzir uma despesa muito maior posteriormente, quando for necessário renegociar contratos, reconstruir fornecedores, recuperar mão de obra especializada, recompor infraestrutura ou reiniciar processos tecnológicos. A chamada economia de curto prazo pode, nesse cenário, transformar-se em custo estratégico e financeiro de longo prazo.

O Programa de Desenvolvimento de Submarinos, o PROSUB, demonstra com clareza por que essa avaliação precisa ir além do equipamento final. A construção dos submarinos representa uma importante ampliação da capacidade da Marinha, mas o programa também envolveu infraestrutura industrial, formação de pessoal, engenharia, processos de fabricação e uma trajetória de desenvolvimento tecnológico que culmina na capacidade brasileira de desenvolver um submarino com propulsão nuclear. O patrimônio construído pelo programa, portanto, não se resume às unidades incorporadas à Força Naval. Ele inclui conhecimento e infraestrutura que dificilmente poderiam ser reconstruídos rapidamente caso fossem perdidos.

A mesma lógica pode ser observada no programa F-X2, que levou à introdução do Gripen na Força Aérea Brasileira. A aeronave representa um salto importante para a capacidade operacional da Força, mas o programa também ampliou a participação brasileira em atividades de engenharia, desenvolvimento, produção, integração e suporte. O valor estratégico de uma parceria tecnológica dessa natureza não está apenas na transferência de um produto para o usuário final, mas na capacidade que o país consegue absorver e preservar para participar de projetos cada vez mais complexos. O conhecimento adquirido por profissionais e empresas brasileiras somente se transforma em vantagem permanente, entretanto, se houver continuidade suficiente para que essas competências sejam empregadas e aprofundadas em novos programas.

O KC-390 Millennium apresenta uma dimensão adicional dessa mesma estratégia porque demonstra como um programa de defesa pode se transformar também em instrumento industrial e de política externa. O desenvolvimento de uma aeronave militar de grande porte e alta complexidade posicionou empresas brasileiras em uma cadeia tecnológica sofisticada e criou um produto com potencial de inserção internacional. Quando um sistema brasileiro chega ao mercado externo, a relação não termina na venda da aeronave ou do equipamento. Surgem oportunidades de manutenção, treinamento, serviços, fornecimento de componentes e novos contratos, ao mesmo tempo em que se estabelece uma relação institucional de longo prazo entre o Brasil e o país comprador. Nesse sentido, exportações de defesa podem contribuir simultaneamente para a indústria, para a geração de divisas e para a construção de relacionamentos estratégicos.

O Programa Guarani segue uma lógica semelhante. A renovação da capacidade mecanizada do Exército não pode ser analisada exclusivamente pelo número de veículos entregues às unidades. A existência de uma cadeia nacional envolvida na fabricação, integração, manutenção e evolução da plataforma cria competências que podem ser aproveitadas no desenvolvimento de futuras gerações de sistemas terrestres. A capacidade industrial instalada e o conhecimento acumulado tornam-se, nesse caso, parte do patrimônio estratégico do país.

Esses exemplos revelam uma característica importante do investimento em Defesa: o retorno estratégico de um programa não está necessariamente contido no equipamento adquirido. Ele também pode estar na capacidade tecnológica, industrial e humana que permanece disponível depois que o equipamento entra em operação. É justamente essa dimensão que precisa ser considerada quando se avaliam os efeitos de contingenciamentos, atrasos e interrupções em programas de longo prazo.

A necessidade de preservar essas capacidades torna-se ainda maior diante da transformação tecnológica do ambiente de segurança internacional. As guerras recentes demonstraram que plataformas continuam fundamentais, mas sua eficácia depende cada vez mais de sistemas que permanecem menos visíveis para o público. Sensores, radares, comunicações seguras, guerra eletrônica, inteligência artificial, processamento de dados, sistemas de comando e controle, cibernética, navegação, guiagem, autonomia e integração entre diferentes plataformas passaram a desempenhar papel decisivo na capacidade de uma força militar operar em ambientes complexos.

Esse cenário abre uma série de áreas nas quais o Brasil precisa identificar suas próprias ilhas de soberania tecnológica. Semicondutores e eletrônica de alta confiabilidade, sensores e sistemas optrônicos, radares, guerra eletrônica, inteligência artificial, cibernética, comunicações seguras, sistemas espaciais, navegação e guiagem, propulsão, materiais avançados, química fina, sistemas autônomos, robótica e armazenamento de energia são exemplos de campos nos quais uma dependência excessivamente concentrada pode produzir vulnerabilidades que não aparecem durante períodos de normalidade.

Mais uma vez, isso não significa que o país precise fabricar internamente todos os componentes utilizados nessas tecnologias. O objetivo deve ser identificar os pontos de estrangulamento das cadeias. Um componente de dimensões reduzidas pode ser suficiente para impedir o funcionamento de um sistema inteiro se não houver alternativa de fornecimento. Um sensor, determinado circuito eletrônico, uma liga metálica específica, um software, um sistema de comunicação ou mesmo uma capacidade de manutenção pode parecer secundário quando analisado isoladamente, mas tornar-se crítico quando integrado a uma arquitetura militar ou de infraestrutura.

Essa preocupação leva diretamente ao subsolo brasileiro e à necessidade de rever a forma como o país encara suas próprias riquezas naturais. O Brasil é uma potência mineral e possui uma posição extremamente relevante na produção de diversas commodities. Essa condição é uma vantagem econômica que deve ser preservada, mas ela não deveria representar o ponto final da estratégia nacional. O verdadeiro problema não está em exportar commodities; está em permanecer concentrado na exportação de matéria-prima enquanto outras economias capturam a maior parcela do valor ao transformar esses recursos em materiais processados, componentes, equipamentos e produtos tecnológicos.

A diferença entre possuir um recurso e dominar sua cadeia produtiva é uma das questões centrais para a soberania econômica brasileira. Uma determinada matéria-prima pode sair do país com baixo nível de processamento e retornar posteriormente incorporada a produtos de elevado valor agregado. Nesse intervalo estão justamente as etapas que concentram parte significativa do conhecimento, da tecnologia, da propriedade intelectual e da geração de empregos qualificados. Beneficiamento, processamento químico, separação, refino, produção de materiais de alta pureza, fabricação de ligas e componentes e desenvolvimento de aplicações industriais são etapas que podem transformar uma vantagem geológica em uma vantagem tecnológica.

As terras raras tornam essa discussão especialmente evidente. O Brasil possui recursos importantes, mas a existência dessas reservas não garante, por si só, domínio sobre as tecnologias associadas a esses elementos. A capacidade estratégica começa a surgir quando o país consegue avançar da extração para o beneficiamento, a separação e o refino e, posteriormente, para a produção de materiais e componentes de maior valor agregado. Ímãs permanentes, materiais especiais, componentes eletrônicos e diferentes aplicações industriais dependem de cadeias tecnológicas que vão muito além da mineração.

Esse raciocínio pode ser estendido a outros minerais críticos. O Brasil possui recursos relevantes de diferentes elementos necessários à indústria avançada, à transição energética e a tecnologias de defesa. O desafio não é simplesmente extrair mais. É criar condições para que uma parcela maior do valor econômico e tecnológico dessas cadeias permaneça no país. Isso exige investimentos em plantas de processamento e refino, pesquisa aplicada, centros tecnológicos, qualificação profissional, infraestrutura e mecanismos de financiamento capazes de suportar projetos que, assim como os programas de defesa, não produzem resultados completos em um único exercício.

A discussão sobre commodities, portanto, precisa deixar de ser tratada como uma simples oposição entre exportar ou não exportar. O Brasil continuará exportando minério, petróleo, produtos agrícolas e outras commodities porque essa é uma característica importante de sua economia e uma fonte relevante de divisas. A questão estratégica é impedir que a cadeia termine na matéria-prima quando existe capacidade e oportunidade para avançar em direção a etapas industriais mais sofisticadas.

Quanto mais etapas o país consegue dominar, maior tende a ser sua capacidade de gerar conhecimento, empregos qualificados, propriedade intelectual e empresas competitivas. A transformação de um recurso natural em material avançado, componente ou produto tecnológico também cria uma relação mais profunda entre mineração, indústria e ciência. É essa integração que permite transformar riqueza natural em capacidade nacional.

No setor de Defesa, essa conexão é particularmente importante porque diversos sistemas dependem de materiais e componentes que têm origem muito anterior à montagem do equipamento final. Sensores, motores, sistemas eletrônicos, baterias, materiais especiais, ligas metálicas, ímãs e componentes de alta precisão fazem parte de cadeias industriais que começam na mineração, passam pela química e pela metalurgia e chegam à engenharia de sistemas. Se o Brasil deseja ampliar sua autonomia em Defesa, precisa olhar também para essas camadas anteriores.

O mesmo vale para o setor espacial. A capacidade de colocar um satélite em órbita é apenas uma parte de uma infraestrutura espacial soberana. Comunicações, sensoriamento remoto, processamento de dados, infraestrutura terrestre, conhecimento orbital, software e tecnologias críticas determinam a capacidade efetiva de utilizar o espaço em benefício da segurança e do desenvolvimento nacional. A soberania espacial, portanto, não se resume ao lançamento de plataformas, mas à capacidade de controlar e utilizar de forma segura os serviços e conhecimentos associados ao domínio espacial.

No ambiente cibernético, a dependência pode ser ainda mais difícil de identificar. Sistemas críticos podem depender de softwares, atualizações, componentes, serviços e fornecedores estrangeiros. Em condições normais, essas relações podem ser perfeitamente funcionais. Em uma crise internacional, porém, uma dependência comercial pode adquirir dimensão estratégica. A capacidade de manter sistemas funcionando em um ambiente adverso depende, nesse caso, não apenas daquilo que está fisicamente dentro do território brasileiro, mas também do domínio sobre conhecimento, infraestrutura e processos que permitem sua operação.

É por isso que a soberania tecnológica precisa ser compreendida como uma arquitetura de capacidades e não como uma coleção de equipamentos nacionais. Uma plataforma pode ser produzida no Brasil e ainda conter dependências relevantes. Da mesma maneira, um produto estrangeiro pode ser perfeitamente compatível com os interesses brasileiros se o país possuir alternativas, estoque, capacidade de manutenção, conhecimento suficiente e uma rede de parceiros capaz de assegurar sua disponibilidade.

'A questão não é nacionalizar tudo. É conhecer onde estão as vulnerabilidades."

Essa abordagem também ajuda a colocar a Base Industrial de Defesa dentro de uma política mais ampla de desenvolvimento nacional. Uma empresa que desenvolve determinada tecnologia para uso militar pode posteriormente encontrar aplicações civis. Um profissional formado em um programa estratégico pode levar seu conhecimento para outras áreas. Um fornecedor criado para atender uma demanda das Forças Armadas pode posteriormente participar de cadeias internacionais. Um centro de pesquisa criado para uma necessidade militar pode desenvolver conhecimento aproveitado por setores civis.

Não existe garantia de que isso acontecerá automaticamente, e seria incorreto apresentar cada investimento em Defesa como se tivesse retorno econômico assegurado. Mas existe uma relação concreta entre programas tecnológicos complexos, formação de capital humano, inovação e desenvolvimento industrial que precisa ser considerada quando o Estado avalia seus investimentos.

Essa mesma capacidade industrial também amplia os instrumentos disponíveis para a política externa brasileira. Quanto mais o Brasil desenvolve e produz tecnologias complexas, maior é sua capacidade de estabelecer cooperações em condições mais equilibradas, oferecer produtos e serviços a parceiros, participar de cadeias internacionais e utilizar exportações como instrumento de aproximação estratégica. A indústria de defesa pode, portanto, contribuir para a diplomacia não apenas porque fornece equipamentos, mas porque cria relações de longo prazo sustentadas por tecnologia, treinamento, manutenção e interesses industriais comuns.

Autonomia estratégica não significa isolamento internacional. Na realidade, pode significar exatamente o contrário: um país que possui maior capacidade tecnológica consegue escolher melhor seus parceiros, negociar com maior liberdade e participar de cooperações internacionais sem que toda a relação esteja baseada em uma dependência unilateral. A parceria externa deixa de ser apenas uma necessidade e passa a ser também uma escolha estratégica.

Essa é uma diferença importante para um país como o Brasil, que possui escala territorial, população, recursos naturais e mercado suficientes para construir competências próprias, mas não dispõe de recursos ilimitados para desenvolver tudo simultaneamente. A escolha das prioridades será inevitavelmente necessária. O Estado precisará determinar quais tecnologias devem ser dominadas, quais cadeias precisam ser preservadas, quais recursos minerais devem receber processamento nacional, quais áreas podem depender de parceiros e onde a dependência externa representa risco aceitável ou inaceitável. Essa escolha exige continuidade, e continuidade exige previsibilidade.

Empresas não investem em infraestrutura, equipamentos e profissionais especializados olhando apenas para o próximo orçamento anual. Universidades não formam especialistas em tecnologias complexas em poucos meses. Centros de pesquisa não desenvolvem competências críticas entre o início e o fim de um exercício fiscal. Uma cadeia industrial tampouco pode ser criada e desmontada sucessivamente sem que isso produza consequências.

Quando o Estado sinaliza que determinada capacidade é estratégica, cria uma expectativa de longo prazo que precisa ser acompanhada por planejamento compatível. Caso contrário, o próprio Estado reduz a confiança dos agentes que precisa mobilizar para construir essa capacidade.

A ausência de previsibilidade pode produzir um círculo vicioso. A indústria reduz investimentos porque não enxerga demanda futura; a redução de escala aumenta custos; custos maiores tornam os programas mais difíceis de financiar; a dificuldade financeira provoca novas interrupções; e a interrupção aumenta novamente o custo necessário para retomar a capacidade. O resultado final pode ser exatamente o oposto da economia pretendida.

Por isso, a discussão sobre orçamento de Defesa precisa ser tratada com maior maturidade. O Brasil tem restrições fiscais reais e não pode ignorá-las. Os recursos públicos são finitos e existem demandas sociais igualmente legítimas. A questão é que a limitação de recursos torna ainda mais necessária a definição de prioridades e a proteção da continuidade daqueles investimentos considerados estratégicos.

Responsabilidade fiscal não significa necessariamente reduzir todos os investimentos da mesma maneira, significa escolher. E escolher também significa reconhecer que algumas capacidades custam muito para serem construídas e relativamente pouco para serem destruídas, mas podem custar novamente muito mais para serem reconstruídas.

Essa é a razão pela qual a previsibilidade orçamentária precisa ser acompanhada de uma política clara de prioridades nacionais. O Estado deve saber quais programas precisam atravessar ciclos políticos, quais capacidades precisam ser mantidas continuamente e quais tecnologias devem receber investimentos mesmo quando seus resultados ainda não são imediatamente visíveis.

A construção de soberania tecnológica não produz resultados instantâneos. Muitas vezes, o retorno de uma decisão tomada hoje aparecerá somente quando outra geração estiver ocupando as posições de comando nas Forças Armadas, nas empresas, nas universidades e no próprio governo. É justamente por isso que políticas dessa natureza não podem ser pensadas exclusivamente dentro do calendário eleitoral.

O Brasil não começa essa trajetória do zero. Possui uma indústria aeronáutica de alcance internacional, programas navais complexos, conhecimento acumulado no setor nuclear, capacidades espaciais, empresas de defesa, universidades, centros de pesquisa e uma das maiores bases de recursos naturais do planeta. O desafio está em conectar essas capacidades, fortalecer os elos mais frágeis e evitar que avanços conquistados ao longo de décadas sejam perdidos por falta de continuidade.

A grande oportunidade está justamente na conexão entre essas áreas. O minério pode alimentar a indústria de materiais avançados; esses materiais podem alimentar setores de eletrônica, energia e Defesa; universidades podem formar profissionais para essas cadeias; programas estratégicos podem criar demanda inicial; empresas podem transformar essa demanda em produtos competitivos; e a política externa pode abrir mercados para esses produtos e estabelecer novas parcerias tecnológicas.

É assim que uma política de soberania deixa de ser apenas uma política de aquisição de equipamentos e passa a ser uma política de construção de capacidade nacional.

O 7 de Setembro oferece, portanto, uma oportunidade para ampliar a discussão sobre o significado da independência brasileira. Em 1822, o país afirmou sua autonomia política. No século XXI, preservar essa autonomia significa também garantir que decisões fundamentais não estejam condicionadas por vulnerabilidades tecnológicas, industriais, energéticas ou logísticas que poderiam ter sido antecipadas e reduzidas.

"A independência política é um fato histórico. A soberania tecnológica, industrial e estratégica é uma construção permanente."

Ela exige que o Brasil trate seus recursos naturais como ponto de partida para cadeias de maior valor agregado, e não apenas como matéria-prima destinada à exportação. Exige que programas de Defesa sejam avaliados também pelo conhecimento e pela capacidade industrial que deixam no país. Exige que ciência e tecnologia estejam conectadas às necessidades estratégicas nacionais. Exige que a indústria tenha horizonte suficiente para investir e que o Estado tenha mecanismos para avaliar resultados sem destruir a continuidade necessária ao desenvolvimento das capacidades consideradas essenciais.

Sobretudo, exige que o país compreenda que previsibilidade orçamentária não é privilégio de uma instituição ou de um setor econômico. Quando corretamente associada a planejamento, metas, controle e avaliação, ela é uma ferramenta para preservar o valor dos próprios investimentos públicos.

O Brasil não precisa produzir tudo o que consome, nem deve buscar uma autossuficiência impossível. Precisa, porém, saber quais tecnologias não pode deixar de dominar, quais recursos não pode simplesmente exportar sem agregar valor, quais cadeias industriais não pode permitir que desapareçam e quais dependências externas podem limitar sua liberdade de ação em um momento de crise.

Essa definição será decisiva para o Brasil das próximas décadas. O país possui território, recursos, população, mercado, conhecimento e experiências industriais que poucos Estados reúnem simultaneamente. O que ainda falta é transformar esses ativos dispersos em uma estratégia integrada, capaz de conectar riqueza natural, conhecimento científico, indústria, Defesa e política externa.

É nessa integração que a soberania deixa de ser apenas um princípio constitucional e passa a se transformar em capacidade concreta de Estado. Não se trata de produzir tudo internamente, mas de garantir que, nas áreas em que a liberdade de decisão brasileira depende de conhecimento, tecnologia e capacidade industrial, o país tenha condições de sustentar suas escolhas mesmo quando o ambiente internacional se tornar menos previsível.

Em 1822, o Brasil afirmou sua independência política diante de Portugal. Mais de duzentos anos depois, o desafio é assegurar que essa independência continue encontrando sustentação nas capacidades que o Brasil consegue construir, preservar e desenvolver. A soberania do século XXI será cada vez menos determinada apenas pelo que existe dentro das fronteiras e cada vez mais pela capacidade de transformar recursos em conhecimento, conhecimento em tecnologia, tecnologia em indústria e indústria em liberdade de decisão.

É essa continuidade que permitirá ao Brasil deixar de possuir apenas ilhas de excelência e construir, a partir delas, um verdadeiro arquipélago de soberania tecnológica, industrial e estratégica.


Por Angelo Nicolaci


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