A OTAN realizou na Islândia, uma nova edição do exercício Northern Viking, voltado principalmente à guerra antissubmarino e à proteção das rotas marítimas no Atlântico Norte. A edição de 2026 chamou atenção pela ausência de navios e aeronaves norte-americanos nas atividades operacionais, deixando a condução das principais ações sob responsabilidade de forças do Canadá e de países europeus, diante do cenário de crescente preocupação com a atividade submarina russa e a segurança das infraestruturas críticas no Atlântico Norte.
Participaram do exercício navios de guerra canadenses, caças belgas, aeronaves de reconhecimento alemãs e forças da França, Portugal e de outros países da Aliança. A condução das operações ficou sob responsabilidade do contra-almirante francês Nicolas Molitor, evidenciando a capacidade dos aliados europeus e canadenses de organizar uma operação multinacional de guerra antissubmarino sem a participação direta de meios norte-americanos.
A localização do exercício é um dos principais elementos para compreender sua importância. A Islândia está posicionada próxima ao chamado GIUK Gap, área marítima formada pelos corredores entre Groenlândia, Islândia e Reino Unido. A região possui importância estratégica para o controle das movimentações navais entre o Atlântico Norte e as águas do Ártico, especialmente em relação aos submarinos russos baseados na Península de Kola.
Para a OTAN, manter capacidade de vigilância e detecção nessa região é fundamental. Submarinos russos que conseguem atravessar o GIUK Gap e alcançar o Atlântico Norte ampliam suas possibilidades de atuação contra linhas de comunicação marítimas, grupos navais e infraestrutura crítica dos países aliados. Por isso, a guerra antissubmarino continua sendo uma das áreas mais sensíveis da defesa do Atlântico Norte.
Durante o Northern Viking, aeronaves alemãs participaram de missões de reconhecimento sobre o Atlântico Norte, incluindo atividades destinadas ao monitoramento do ambiente marítimo e à obtenção de informações sobre o fundo oceânico. Os dados coletados foram compartilhados com a força multinacional, demonstrando a importância da integração entre sensores aéreos, navios e centros de comando para localizar e acompanhar ameaças submarinas.
A ausência de meios norte-americanos, entretanto, não significa que os Estados Unidos tenham deixado de participar da estrutura de segurança da região. Equipes militares norte-americanas continuam envolvidas em atividades de infraestrutura no complexo de Keflavík, enquanto os Estados Unidos também contribuíram para o planejamento do exercício. A diferença está no fato de que, nesta edição, os meios norte-americanos não participaram diretamente das operações marítimas e aéreas.
Esse aspecto confere ao exercício uma dimensão adicional. Durante décadas, a presença militar dos Estados Unidos foi um dos principais elementos da arquitetura de defesa do Atlântico Norte, fornecendo capacidades que incluem aviação naval, guerra antissubmarino, inteligência, vigilância, reconhecimento e poder naval de longo alcance. A capacidade demonstrada pelos aliados no Northern Viking mostra, portanto, um esforço crescente para ampliar a autonomia operacional europeia e canadense em uma região considerada estratégica para toda a Aliança.
Essa evolução ocorre em um momento de mudanças na percepção de segurança dos países europeus. Além da atividade militar russa, cresce a preocupação com a proteção de cabos submarinos, oleodutos, gasodutos e outras infraestruturas críticas instaladas no fundo do mar. Esses sistemas sustentam parte importante das comunicações e do abastecimento energético dos países europeus e passaram a ser tratados como elementos que também precisam ser protegidos em um ambiente de competição estratégica.
O cenário se torna ainda mais complexo com o aumento da importância geopolítica do Ártico. A redução do gelo em determinadas áreas amplia o interesse econômico e militar pela região, enquanto a Rússia mantém importantes capacidades militares no extremo norte. A proximidade da Islândia com essas rotas torna o país um ponto relevante para o monitoramento das movimentações entre o Ártico e o Atlântico.
A questão da Groenlândia também adiciona uma camada geopolítica ao ambiente de segurança do Atlântico Norte. As discussões promovidas pelo governo Donald Trump sobre a importância estratégica da ilha evidenciaram o crescente interesse norte-americano pelo Ártico, ao mesmo tempo em que provocaram preocupação entre aliados europeus. Nesse contexto, Canadá e países europeus passaram a atribuir ainda maior importância à construção de capacidades próprias para atuar no extremo norte e no Atlântico.
O Northern Viking 2026 deve ser observado, portanto, menos como um exercício realizado simplesmente sem os Estados Unidos e mais como uma demonstração da capacidade dos demais integrantes da Aliança de assumir responsabilidades operacionais em uma área crítica. A própria estrutura da OTAN depende da capacidade de diferentes países contribuírem com meios especializados e manterem operações conjuntas mesmo quando determinados aliados não participam diretamente de uma atividade específica.
Para a Rússia, esse movimento também representa uma mudança relevante no ambiente estratégico. A ampliação da capacidade europeia de detectar e acompanhar submarinos no Atlântico Norte reduz os espaços de atuação disponíveis para forças navais russas e aumenta a necessidade de Moscou considerar uma rede mais ampla de sensores, aeronaves e navios durante suas operações.
O exercício também reforça uma tendência que vem ganhando espaço dentro da OTAN: a necessidade de que os aliados europeus desenvolvam capacidades suficientes para assumir maior parcela da responsabilidade pela própria segurança. Isso não elimina a importância dos Estados Unidos, mas amplia a capacidade da Aliança de distribuir responsabilidades e manter operações em diferentes regiões mesmo diante de mudanças na disponibilidade dos meios norte-americanos.
A edição de 2026 do Northern Viking mostra, assim, que o Atlântico Norte continua sendo uma área central na disputa estratégica entre Rússia e OTAN. Ao mesmo tempo, evidencia uma transformação gradual na distribuição das responsabilidades dentro da Aliança, com Canadá e países europeus ampliando sua participação em missões que exigem elevado nível de coordenação, especialmente na guerra antissubmarino e na vigilância das rotas marítimas.
No cenário em que o Atlântico Norte, o Ártico e as infraestruturas submarinas passaram a estar cada vez mais conectados às questões de segurança nacional, a capacidade de monitorar esses espaços deixa de ser apenas uma preocupação militar e passa a integrar diretamente a proteção das economias e das redes críticas dos países aliados. É nesse contexto que o Northern Viking ganha relevância, funcionando simultaneamente como exercício operacional e demonstração da crescente responsabilidade assumida pelos próprios aliados na defesa do flanco norte da OTAN.
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