O Iraque se aproxima de uma transição que poderá definir sua arquitetura de segurança para os próximos anos. A retirada das forças norte-americanas e da coalizão internacional, prevista para 30 de setembro, ocorre paralelamente à tentativa do governo de Ali al-Zaidi de reorganizar a relação entre o Estado e as numerosas organizações armadas que surgiram, cresceram ou foram institucionalizadas ao longo das últimas duas décadas. O desafio vai muito além da entrega de armas. O que está em discussão é a capacidade de Bagdá de estabelecer uma autoridade efetiva sobre todas as forças militares e paramilitares existentes em seu território, sem provocar uma ruptura dentro do próprio sistema político iraquiano.
Depois de assumir o cargo em maio, Zaidi colocou o desarmamento das organizações alinhadas ao Irã entre as prioridades de seu governo. Em julho, durante encontro com Donald Trump em Washington, o primeiro-ministro comprometeu-se a avançar nesse processo, inicialmente associando a entrega das armas ao mesmo prazo estabelecido para a retirada da coalizão. Nas últimas semanas, entretanto, autoridades iraquianas passaram a tratar 30 de setembro com maior cautela, indicando que a data está diretamente relacionada à saída das forças estrangeiras e ao início de uma etapa de negociações para restringir a atuação das organizações armadas. A mudança demonstra a dificuldade de transformar uma decisão política em medida efetivamente executável.
O problema tem origem na própria evolução do sistema de segurança iraquiano. A derrota do Estado Islâmico exigiu a mobilização de grandes contingentes armados fora das estruturas convencionais do Exército, e as Forças de Mobilização Popular, as PMF, foram posteriormente incorporadas ao aparato estatal. Essa institucionalização, contudo, não produziu uma força homogênea. As PMF reúnem organizações com diferentes trajetórias, interesses políticos e graus de proximidade com o Irã. Algumas aceitaram a integração ao Estado, enquanto outras preservaram estruturas próprias de comando, redes políticas e relações externas que lhes conferem considerável autonomia.
Essa característica torna o caso iraquiano particularmente complexo do ponto de vista militar. A existência de uma força dentro da estrutura legal do Estado não significa, necessariamente, que o governo controle integralmente seu emprego operacional. Para que uma organização seja efetivamente subordinada ao poder estatal, não basta que seus integrantes recebam salários públicos ou que suas unidades estejam formalmente vinculadas a um ministério. O Estado precisa controlar a designação de comandantes, as ordens de emprego, a movimentação das unidades, o acesso à inteligência, a logística, as comunicações e, sobretudo, a autorização para utilização da força.
É nessa dimensão que algumas das organizações mais próximas de Teerã representam um problema para Bagdá. A influência iraniana não depende exclusivamente do fornecimento de armamentos. Ao longo dos anos, Teerã desenvolveu relações políticas, militares, econômicas e religiosas com diferentes grupos iraquianos, criando uma rede de influência que sobrevive independentemente da presença permanente de tropas iranianas. Algumas dessas organizações possuem capacidade própria para conduzir operações, mobilizar combatentes e empregar drones, mísseis e outros sistemas de ataque, o que lhes permite atuar como atores militares relevantes dentro do próprio território iraquiano.
A dimensão dessa capacidade explica por que o governo não pode tratar o processo como uma operação convencional de desarmamento. Segundo autoridades de segurança citadas pela Reuters, as facções mais resistentes reúnem aproximadamente 50 mil combatentes e possuem mísseis de longo alcance, sistemas de defesa aérea e drones, além de interesses econômicos desenvolvidos em diferentes setores. Não se trata, portanto, de pequenos grupos armados que possam ser neutralizados por uma operação policial. São estruturas que acumularam recursos humanos, materiais e políticos suficientes para influenciar o processo decisório nacional.
As prisões realizadas em agosto ilustram esse novo estágio da disputa. Forças especiais diretamente subordinadas ao primeiro-ministro prenderam o chefe de inteligência de Harakat al-Nujaba, organização alinhada ao Irã e designada como terrorista pelo governo norte-americano, sob acusações relacionadas a ataques com drones contra interesses dos Estados Unidos. A operação provocou ameaças de retaliação e reação de importantes lideranças políticas xiitas. Poucos dias depois, outras detenções relacionadas a ataques contra interesses norte-americanos demonstraram que Bagdá começava a utilizar diretamente seus próprios instrumentos de segurança contra integrantes de organizações que, em diferentes momentos, também fizeram parte do esforço de combate ao Estado Islâmico.
O governo precisa, entretanto, administrar cuidadosamente a dimensão política dessas ações. Uma ofensiva indiscriminada contra as organizações armadas poderia transformar uma disputa sobre autoridade estatal em um conflito interno de grandes proporções. Zaidi precisa construir uma separação clara entre a integração das forças que aceitam a autoridade constitucional e o enfrentamento das estruturas que pretendem preservar uma capacidade militar independente. Essa distinção é fundamental para evitar que o processo seja apresentado como uma guerra do governo contra grupos xiitas ou como uma iniciativa executada em nome dos Estados Unidos.
A resistência de algumas organizações demonstra que esse equilíbrio será difícil. Kataib Hezbollah e Harakat Hezbollah al-Nujaba estão entre as facções que rejeitaram o processo nos termos apresentados pelo governo. Outros grupos condicionaram a entrega de armas a garantias relacionadas à retirada norte-americana e ao fim da influência política e econômica dos Estados Unidos. Algumas organizações mais pragmáticas, por outro lado, demonstraram disposição para integrar seus integrantes às estruturas estatais. Essa divisão cria espaço para uma estratégia gradual de Bagdá, que pode tentar consolidar primeiro a integração das facções mais dispostas a negociar e isolar politicamente aquelas que mantiverem uma posição de confronto.
A retirada norte-americana altera significativamente esse cálculo. Durante anos, a presença militar dos Estados Unidos serviu como uma das principais justificativas utilizadas pelas organizações armadas para preservar seus arsenais. Com a saída da coalizão, essa justificativa perde parte de sua força, pois o governo poderá argumentar que a principal ameaça externa que sustentava a necessidade de uma resistência armada estará deixando o país. Ao mesmo tempo, entretanto, a retirada reduz uma importante capacidade externa de dissuasão sobre os grupos alinhados ao Irã e aumenta a responsabilidade das próprias forças iraquianas pela segurança nacional.
Esse paradoxo coloca o Exército iraquiano e as demais estruturas oficiais de segurança no centro do processo. A soberania não será consolidada apenas pela ausência de tropas estrangeiras, mas pela capacidade das instituições nacionais de preencher o espaço operacional deixado por elas. Isso exige comando integrado, inteligência compartilhada, capacidade de vigilância, controle das fronteiras, defesa contra drones e mísseis e, principalmente, uma cadeia de autoridade capaz de impedir que diferentes organizações militares tomem decisões independentes em situações de crise.
O componente iraniano torna essa transição ainda mais sensível. Para Teerã, o Iraque possui valor estratégico que ultrapassa sua importância territorial. O país funciona como espaço de profundidade estratégica, ligação geográfica com a Síria e o Líbano e ambiente político no qual o Irã construiu relações com partidos, lideranças religiosas e organizações armadas. A redução da autonomia militar dessas organizações significaria, portanto, uma diminuição de uma das principais ferramentas de influência iraniana no sistema de segurança iraquiano.
Washington possui interesse em uma direção diferente. A retirada militar reduz os custos e os riscos associados à permanência de suas tropas, mas os Estados Unidos também precisam evitar que o encerramento dessa presença resulte em um Iraque incapaz de impedir ataques contra seus interesses ou em um ambiente no qual as organizações apoiadas por Teerã ampliem sua liberdade de ação. Para Bagdá, entretanto, aceitar que sua política de segurança continue subordinada aos interesses de qualquer uma das duas potências seria justamente contrariar o objetivo de recuperar autonomia estratégica.
Por isso, o resultado mais provável não é uma desmobilização completa e simultânea das organizações armadas. Um processo desse tipo exigiria condições políticas e militares que atualmente não parecem existir. É mais plausível que o governo avance por etapas, combinando integração de combatentes, reorganização das estruturas de comando, transferência de determinados armamentos para o Estado e negociação política com as facções mais resistentes. A questão decisiva será saber se essa integração produzirá efetivamente uma mudança na autoridade operacional ou apenas uma mudança administrativa.
Esse ponto merece atenção porque uma força pode estar formalmente subordinada ao Estado e continuar funcionando como instrumento de uma estrutura política externa à cadeia militar nacional. A incorporação de efetivos, a transferência de equipamentos e a inclusão de unidades no orçamento público são medidas importantes, mas não suficientes. A integração somente estará consolidada quando o governo puder determinar suas missões, selecionar seus comandantes, controlar sua logística e decidir autonomamente quando e como essas forças serão empregadas.
É nesse aspecto que o processo conduzido por Zaidi poderá produzir consequências muito maiores do que a simples redução do número de armas nas mãos das facções. Se Bagdá conseguir reorganizar progressivamente as PMF e as demais formações armadas dentro de uma cadeia de comando nacional, poderá transformar uma estrutura criada em resposta a uma emergência militar em um componente efetivamente subordinado ao Estado. Se, ao contrário, a integração ocorrer apenas no plano administrativo enquanto as antigas redes de lealdade permanecerem intactas, o Iraque poderá continuar convivendo com múltiplos centros de poder armado.
A data de 30 de setembro deve ser observada, portanto, menos como um prazo definitivo para o desaparecimento das milícias e mais como o início de uma fase decisiva da reorganização da segurança iraquiana. O resultado dependerá da capacidade de Zaidi de combinar pressão política, negociação e autoridade militar sem provocar uma reação que o próprio Estado ainda não tenha capacidade de controlar.
O Iraque chega a essa transição com instituições de segurança muito mais desenvolvidas do que aquelas existentes após a queda de Saddam Hussein, mas também com uma estrutura de poder construída sobre décadas de guerra, intervenção estrangeira e competição entre atores regionais. A saída dos Estados Unidos encerra uma etapa, mas não resolve automaticamente as relações de poder que surgiram durante esse período.
O desafio de Bagdá será transformar a retirada da coalizão em uma oportunidade para consolidar sua própria capacidade de decisão. Para isso, terá de demonstrar que suas forças armadas e estruturas de segurança não são apenas instituições formalmente estatais, mas instrumentos efetivamente subordinados a uma única autoridade política nacional. O resultado desse processo determinará não apenas a margem de manobra do governo de Ali al-Zaidi, mas também o grau de influência que Washington e Teerã continuarão exercendo sobre o Iraque depois da retirada norte-americana.
por Angelo Nicolaci
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