quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Harpoon entra na reta final e coloca FAB diante do desafio de uma nova capacidade antinavio

A Força Aérea Brasileira entrou em uma fase decisiva para o futuro de sua capacidade de ataque antinavio a partir do ar. O AGM-84L Harpoon Block II, empregado pelos P-3AM Orion, continuará sendo sustentado por meio de manutenção, formação de estoques, recertificação e suporte contratado no âmbito do programa norte-americano Foreign Military Sales (FMS). O problema é que a própria documentação da FAB identifica um horizonte de risco: a Marinha dos Estados Unidos prevê retirar de operação a versão de lançamento aéreo do Harpoon em 2035, o que tende a reduzir progressivamente a disponibilidade do suporte externo ao sistema brasileiro.

O Harpoon foi incorporado à capacidade operacional dos P-3AM depois da aquisição brasileira realizada por meio do case BR-P-ASP, assinado em 2014. A arma passou por integração, homologação e treinamento específicos para o Orion, acrescentando ao avião uma capacidade de ataque antinavio de longo alcance além de suas funções de patrulha marítima, guerra antissubmarino e vigilância de extensas áreas do Atlântico.

O desafio atual é essencialmente de ciclo de vida. O plano aprovado pela Diretoria de Material Aeronáutico e Bélico em abril de 2026 prevê a continuidade do suporte e a internalização de atividades de manutenção, mas reconhece a necessidade de reduzir a exposição futura à cadeia logística norte-americana. O suporte complementar pelo FMS, estabelecido pelo case BR-P-GVX em 2021, possui vigência financeira prevista até setembro de 2026, enquanto a FAB trabalha com mecanismos de renovação, estoques e nacionalização das atividades que estão dentro de sua capacidade.

A questão não se resume à disponibilidade física dos mísseis. O Harpoon depende de uma cadeia que envolve armamento, equipamentos de apoio, software, interfaces com a aeronave, treinamento, manutenção e procedimentos de emprego. Qualquer sucessor terá de enfrentar processo semelhante de integração, ensaios, homologação e certificação, o que torna inadequado esperar pelo fim da vida operacional do sistema atual para iniciar seu substituto.

É nesse intervalo que surge uma oportunidade para a indústria brasileira. Em fevereiro de 2026, a Marinha do Brasil e a SIATT assinaram um Protocolo de Intenções para estudos e intercâmbio de informações destinados ao desenvolvimento de dois grupos de Mísseis Ar-Superfície Antinavio, denominados MARSUP. O instrumento, com vigência até 2031, prevê estudos preliminares para avaliar a viabilidade de desenvolvimento conjunto a partir de conhecimentos e tecnologias acumulados no programa MANSUP.

O MARSUP, entretanto, ainda não é um sistema operacional e não foi definido publicamente como substituto do Harpoon. A iniciativa está em fase de estudos e, neste primeiro momento, está orientada às aeronaves da Força Aeronaval da Marinha. Sua importância para a FAB está na possibilidade de o Brasil desenvolver uma família nacional de armamentos antinavio lançados do ar que, caso alcance maturidade tecnológica e atenda aos requisitos das Forças, possa futuramente ser considerada para outras plataformas.

Essa possibilidade parte de uma base tecnológica que já existe. O desenvolvimento do MANSUP permitiu à indústria brasileira acumular competências em guiagem, navegação e controle, computador de guiagem, altímetro, atuadores, telemetria e integração de sistemas. A sequência de lançamentos e a evolução dos subsistemas reduziram parte da curva tecnológica necessária para uma nova família de armamentos, embora uma versão aerolançada imponha requisitos próprios.

A lógica de uma família também amplia o potencial do investimento. O MANSUP já avança para o MANSUP-ER, enquanto o MARSUP procura levar conhecimentos dessa linha tecnológica para o emprego a partir de aeronaves. O compartilhamento de soluções e competências pode criar uma base industrial comum, ainda que cada variante dependa de desenvolvimento, ensaios e certificação específicos.

Para a Aviação Naval, a necessidade possui uma aplicação direta. O AH-15B Super Cougar emprega atualmente o AM39 Exocet em sua missão antinavio, e o MARSUP abre a possibilidade de uma futura sucessão nacional para essa capacidade. Alcance, massa, interfaces, integração com o helicóptero e parâmetros de lançamento ainda dependem do desenvolvimento, mas a lógica operacional é ampliar a capacidade de engajamento sem exigir que a aeronave se aproxime excessivamente do alvo.

Na FAB, o problema assume outra escala e envolve tanto o P-3AM quanto seu futuro sucessor. O Orion continua desempenhando funções de patrulha marítima, vigilância de longo alcance e guerra antissubmarino, mas sua substituição precisará considerar desde o início a capacidade de emprego de armamentos antinavio. Integrar essa função durante a definição dos requisitos da próxima aeronave tende a ser mais racional do que repetir posteriormente um processo específico de adaptação.

A própria documentação da FAB estabelece uma referência importante para esse planejamento. Antes do horizonte de 2035, deverá ser realizada nova avaliação do programa, considerando a evolução do sistema, sua obsolescência, as condições de suporte e as alternativas disponíveis. Essa janela permite que uma eventual solução nacional seja avaliada enquanto o Harpoon ainda permanece disponível, reduzindo o risco de uma transição conduzida sob pressão.

Isso coloca o Brasil diante de mais de uma possibilidade. A FAB poderá futuramente optar por uma nova aquisição estrangeira, desenvolver uma solução nacional ou combinar diferentes alternativas durante a transição. O MARSUP não elimina nenhuma dessas opções e ainda precisa demonstrar viabilidade, desempenho, maturidade e capacidade de integração. O ponto estratégico é que o país possui tempo para avaliar essas possibilidades antes que a atual capacidade entre em sua fase crítica.

A discussão também deve considerar a cadeia de informações necessária para o emprego de um míssil antinavio moderno. Radares, sensores eletro-ópticos, inteligência de sinais, guerra eletrônica, comunicações seguras e sistemas de comando e controle precisam produzir uma solução de tiro confiável antes do lançamento. A arma é apenas o componente final de uma arquitetura muito maior de consciência situacional marítima.

Essa arquitetura possui relação direta com a proteção da Amazônia Azul. A dimensão das águas jurisdicionais brasileiras exige meios capazes de detectar, acompanhar e responder a ameaças em áreas distantes do litoral. Aeronaves de patrulha e helicópteros equipados com armamentos antinavio acrescentam mobilidade a essa estrutura, permitindo concentrar poder de combate onde uma ameaça seja identificada sem depender exclusivamente da presença permanente de navios de superfície.

O desenvolvimento nacional também possui impacto sobre a Base Industrial de Defesa. Um míssil desse tipo movimenta competências em propulsão, eletrônica, sensores, navegação, software, atuadores, telemetria, integração e ensaios. O conhecimento acumulado no MANSUP reduz parte do esforço inicial, mas a transição para uma arma aerolançada continuará exigindo desenvolvimento específico, inclusive para atender às condições aerodinâmicas e às interfaces de cada plataforma.

O momento, portanto, é particularmente relevante. A FAB trabalha para preservar a disponibilidade do Harpoon enquanto sua cadeia logística ainda pode ser sustentada, ao mesmo tempo em que o calendário norte-americano aponta para uma mudança estrutural após 2035. Paralelamente, a Marinha iniciou os estudos do MARSUP e continua ampliando a família MANSUP. São programas distintos, mas que podem convergir para uma mesma necessidade nacional: preservar, no longo prazo, uma capacidade soberana de ataque antinavio a partir do ar.

O desafio não é simplesmente encontrar um sucessor para o AGM-84L. É evitar que o encerramento de seu ciclo produza uma lacuna operacional justamente em uma capacidade relevante para a defesa marítima brasileira. Se o país utilizar os próximos anos para desenvolver, testar, certificar e integrar uma solução nacional, a transição poderá ocorrer com continuidade. Caso contrário, a aproximação do fim do suporte ao Harpoon poderá transformar uma questão hoje administrável em uma nova dependência de aquisição externa.

O Harpoon tornou-se, assim, um marcador temporal para a próxima geração da guerra antissuperfície brasileira. A FAB possui uma janela para preservar a capacidade atual; o MANSUP fornece uma base tecnológica já desenvolvida no país; e o MARSUP abre uma possibilidade que ainda precisa ser comprovada. Transformar esses elementos em uma capacidade operacional exigirá continuidade de recursos, integração entre as Forças e planejamento de longo prazo. É justamente essa decisão que determinará se a próxima transição será apenas uma substituição de equipamento ou a consolidação de uma capacidade brasileira de ataque antinavio aerolançado.


por Angelo Nicolaci


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