Nova diretriz incorpora drones ao Programa Estratégico AvEx e Drones, enquanto declaração do Comandante do Exército confirma conversas com a Türkiye e apuração do GBN Defense aponta o TB3 como potencial escolha para a futura capacidade de ataque
A transformação da Aviação do Exército Brasileiro começa a ganhar contornos mais claros, e os sistemas aéreos não tripulados aparecem no centro desse processo. Durante o Apronto Operacional da Operação Membeca 2026, realizado em 29 de julho no Campo de Instrução de Gericinó, no Rio de Janeiro, o Comandante do Exército confirmou que as conversas mais avançadas da Força envolvem drones de ataque de maior capacidade, em tratativas com a indústria da Türkiye.
A declaração ganhou ainda mais relevância diante de uma decisão formal tomada pelo Estado-Maior do Exército poucas semanas depois. Em 21 de agosto, foi publicada a Portaria EME/C Ex nº 1.805, que aprovou a atualização do Programa Estratégico do Exército Aviação do Exército e Drones (Prg EE Av Ex/Drones). O documento, divulgado no Boletim do Exército nº 35, de 28 de agosto, passa a incorporar de maneira explícita os sistemas não tripulados à evolução da capacidade da Aviação do Exército.
É nesse contexto que o Bayraktar TB3 ganha protagonismo. Segundo apuração do GBN Defense, o sistema desenvolvido pela Baykar é a solução que concentra a preferência brasileira dentro das tratativas conduzidas com a indústria turca. As negociações avançaram de forma significativa e o TB3 passou a ser tratado como a principal opção para dotar o Exército de uma capacidade de drones armados de maior porte.
A definição, contudo, ainda não foi formalizada publicamente pelo Exército Brasileiro. Por isso, embora a apuração indique uma escolha já estabelecida no âmbito das tratativas, não há neste momento contrato, quantidade de aeronaves, valor ou cronograma oficialmente anunciados. Segundo fontes com conhecimento das negociações, a expectativa é que algum contrato ou memorando relacionado ao processo possa ser anunciado entre meados de 2027 e o início de 2028. Trata-se de uma perspectiva associada ao andamento das negociações, e não de um calendário oficial divulgado pela Força.
O próprio Comandante do Exército havia indicado durante a coletiva da Membeca que o interesse brasileiro está concentrado em drones de ataque de maior capacidade, classificados como Categoria 3, capazes de atuar contra alvos com precisão. A fala colocou os sistemas não tripulados entre os projetos de aquisição mais avançados atualmente conduzidos pela Força.
A escolha do TB3 também não ocorre em torno de uma tecnologia ainda sem maturidade operacional. O sistema desenvolvido pela Baykar foi concebido para missões de inteligência, vigilância, reconhecimento, aquisição de alvos e emprego de armamento. Em 2026, o TB3 participou do exercício Steadfast Dart, da OTAN, realizando ataque de precisão contra alvo durante o treinamento, além de demonstrar sua capacidade de operação a partir do navio-aeródromo multipropósito TCG Anadolu.
Para o Exército Brasileiro, entretanto, o principal significado de uma eventual incorporação não estaria apenas na capacidade de lançar armamentos. O salto está na possibilidade de manter um sensor aéreo persistente sobre determinada área, ampliar a consciência situacional das tropas, identificar e acompanhar alvos e transmitir essas informações para os demais elementos da Força Terrestre.
Essa capacidade modifica a forma como a tropa pode enxergar o campo de batalha. Um sistema dessa categoria pode atuar como extensão dos sensores terrestres, apoiar a artilharia na aquisição de alvos, acompanhar movimentos adversários e, quando autorizado, realizar o engajamento sem expor uma tripulação humana. A lógica, portanto, não é simplesmente acrescentar uma aeronave armada ao inventário, mas ampliar o ciclo de detecção, decisão e emprego do poder de combate.
A atualização do programa estratégico demonstra que o Exército pretende estruturar essa capacidade dentro de uma arquitetura mais ampla. A Portaria nº 1.805 insere os drones no planejamento da Aviação do Exército e estabelece uma visão de longo prazo para a evolução das capacidades da Força. A iniciativa se soma a medidas anteriores relacionadas à implantação de estruturas dedicadas aos Sistemas de Aeronaves Remotamente Pilotadas, incluindo a previsão de uma Companhia SARP.
O drone, portanto, não aparece como um projeto isolado. Ele passa a fazer parte de uma transformação que envolve também a renovação dos meios tripulados da Aviação do Exército. A própria atualização do Programa Estratégico AvEx e Drones contempla a busca por uma nova aeronave multimissão para substituir o HA-1 Fennec, além da incorporação futura de helicópteros de médio porte e de ataque e de novas capacidades de transporte aéreo. O horizonte do programa se estende até 2040.
É justamente nessa arquitetura que o TB3 pode assumir um papel estratégico. Em vez de substituir aeronaves tripuladas, os drones de maior capacidade tendem a complementar helicópteros e demais meios aéreos, permitindo que cada plataforma seja empregada de acordo com suas características e reduzindo a exposição das tripulações em determinadas missões.
A aproximação com a indústria de defesa da Türkiye também ganhou uma dimensão política nos últimos dias. Em 24 de agosto, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversou por telefone com o presidente Recep Tayyip Erdoğan, quando os dois trataram da ampliação da cooperação bilateral em defesa e do aprofundamento de parcerias entre empresas dos dois países. A conversa ocorreu poucos dias depois da publicação da nova diretriz da AvEx e da confirmação, pelo Comandante do Exército, das tratativas com a indústria turca.
O interesse por drones de ataque de Categoria 3 coloca a indústria turca diante de uma oportunidade relevante no mercado brasileiro, mas, para o Brasil, a questão central não será apenas adquirir a aeronave. A incorporação de um sistema como o TB3 exigirá doutrina, formação de operadores, infraestrutura, enlaces de dados, integração com sistemas de comando e controle, logística, manutenção e disponibilidade de armamentos. A participação da Base Industrial de Defesa brasileira também será importante para transformar a aquisição em capacidade militar sustentável.
A efetividade dessa transformação, contudo, dependerá de um fator que vai além da decisão de incorporar novos sistemas: a previsibilidade orçamentária. A publicação de uma diretriz estabelece o caminho institucional, mas não garante, por si só, os recursos necessários para percorrê-lo. Um programa dessa dimensão exige investimentos continuados, capazes de sustentar não apenas a aquisição dos equipamentos, mas também sua integração, formação de pessoal, infraestrutura e desenvolvimento da doutrina.
Esse aspecto é particularmente relevante no caso de sistemas de maior complexidade como o TB3. O custo de uma capacidade militar não termina com a assinatura do contrato ou a entrega das aeronaves. Operar drones armados de maior porte exige horas de voo, manutenção, peças de reposição, treinamento permanente, link de dados, infraestrutura, sistemas de comando e controle e disponibilidade de armamentos. Sem uma previsão orçamentária capaz de sustentar essas despesas ao longo dos anos, existe o risco de transformar uma aquisição estratégica em capacidade subutilizada.
A experiência das Forças Armadas demonstra que modernização não se resume à incorporação de novos meios ao inventário. O verdadeiro resultado aparece quando o equipamento consegue permanecer operacional, integrado à doutrina e disponível para emprego quando necessário. Por isso, a atualização do Programa AvEx e Drones precisará ser acompanhada de uma política de financiamento compatível com seu horizonte até 2040, garantindo continuidade aos projetos e previsibilidade para a própria Base Industrial de Defesa.
Nesse sentido, o desafio colocado ao Exército e ao governo não será apenas viabilizar a eventual aquisição do TB3, mas assegurar que os recursos acompanhem o programa durante todo o seu ciclo de vida. A compra de uma capacidade sofisticada sem a correspondente garantia de recursos para mantê-la operando produziria apenas uma modernização parcial. Para que a transformação da Aviação do Exército produza efeitos concretos, será necessário transformar planejamento estratégico em compromisso orçamentário continuado.
O conjunto desses movimentos indica que o processo já ultrapassou a fase meramente conceitual, mas ainda terá de superar etapas decisivas até se transformar em uma capacidade operacional efetiva. A eventual formalização da escolha pelo TB3 será apenas uma delas. A partir daí, será necessário garantir recursos para aquisição, implantação e operação do sistema ao longo de seu ciclo de vida, além de estruturar a doutrina e a integração com os demais meios da Força Terrestre.
Se a definição pelo Bayraktar TB3 for posteriormente formalizada, o Exército estará dando um passo importante na construção de uma capacidade ainda relativamente nova dentro da estrutura brasileira: o emprego de aeronaves remotamente pilotadas de maior porte com capacidade ofensiva integrada às operações terrestres.
Mais do que a aquisição de um novo vetor, estará em jogo a mudança da maneira como a Força Terrestre coleta informações, identifica alvos e emprega poder de combate. O desafio seguinte será transformar essa plataforma em capacidade militar permanente, integrada e sustentável.
A atualização do Programa indica que essa transformação já foi colocada no planejamento estratégico do Exército. A possível escolha do TB3 mostra, por outro lado, que o debate deixou de ser apenas sobre se o Brasil terá drones de ataque e passou a ser sobre qual sistema será responsável por inaugurar essa nova etapa da Aviação do Exército.
Por Angelo Nicolaci
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