quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Aviação do Exército prepara nova arquitetura de combate com UH-60M, drones e criação do BARP

"Em entrevista, General Amorim revela ao GBN Defense os planos para integrar helicópteros, SARP, inteligência artificial e guerra eletrônica diante de um campo de batalha cada vez mais transparente e contestado"

A Aviação do Exército atravessa um processo de transformação que vai muito além da simples renovação de sua frota de helicópteros. A evolução dos conflitos recentes, marcada pela presença massiva de drones, pelo emprego crescente da Guerra Eletrônica, pela dimensão cibernética e pela redução da liberdade de ação no espaço aéreo, está levando a Força Terrestre a repensar a forma como emprega suas capacidades aéreas.

Em entrevista ao GBN Defense, o General de Brigada Evandro Luís Amorim Rocha, Comandante da Aviação do Exército, apresentou um panorama das mudanças em curso e das prioridades que deverão orientar a AvEx nos próximos anos. A transformação envolve desde a incorporação dos novos HM-2A Black Hawkdesignação brasileira do UH-60M, até a criação de uma estrutura dedicada à operação de sistemas remotamente pilotados, passando pelo desenvolvimento de novas doutrinas, treinamento em simuladores, inteligência artificial e capacidades de Comando e Controle.

Segundo General Amorim, o ponto de partida para compreender essa transformação está na própria mudança do ambiente operacional.

O cenário operacional que se descortina apresenta um campo de batalha cada vez mais transparente, devido à existência de recursos tecnológicos democratizados a exemplo dos drones, da Guerra Eletrônica e da Cibernética”, explicou o General.

Esse processo produz uma consequência direta sobre o emprego da aviação militar. O espaço aéreo deixa de ser um ambiente no qual as aeronaves podem operar com relativa liberdade e passa a ser progressivamente disputado, monitorado e ameaçado por diferentes sistemas.

O comandante define esse cenário como um “domínio aéreo cada vez mais sobrecarregado e negado”, condição que exige tripulações mais preparadas e uma capacidade de adaptação permanente.

Nesse contexto, a missão da Aviação do Exército não se limita a operar aeronaves. A estrutura precisa acompanhar a evolução das ameaças, identificar lacunas de capacidade e transformar essas informações em soluções capazes de ampliar as possibilidades de emprego da Força Terrestre.

Cabe ressaltar que a Aviação sempre observará as possíveis ameaças e, a partir delas, construirá capacidades que contribuam para as Capacidades Militares Terrestres, especialmente no Enfrentamento e na Pronta-resposta”, afirmou General Amorim.

HM-2A marca uma nova etapa para a frota

Uma das mudanças mais importantes está na incorporação do HM-2A, designação adotada pelo Exército Brasileiro para o UH-60M Black Hawk. A aeronave está sendo incorporada por meio do Projeto Capacidade de Manobra, inserido no Programa Estratégico Exército Aviação e Drones.

A chegada do novo helicóptero não representa apenas a aquisição de uma plataforma. Segundo General Amorim, o objetivo é realizar sua incorporação completa à estrutura da Aviação, envolvendo operação, formação de pessoal, treinamento, regulamentação e logística.

O processo já está em andamento. Tripulações estão sendo formadas, estruturas de treinamento e apoio logístico estão sendo adaptadas e documentos doutrinários relacionados ao emprego da aeronave estão sendo atualizados ou produzidos.

Do contrato estabelecido, uma aeronave já foi recebida. Outras oito estão previstas para 2028 e as três últimas para 2029. A introdução do HM-2A também está diretamente relacionada à necessidade de substituir plataformas que se aproximam do final de seus ciclos de vida. 

A prioridade é substituir principalmente os HM-3 Cougar e os HM-2 Black Hawk (variante S-70A), mantendo na medida do possível, parte da frota atual em operação durante a transição.

Alguns HM-3 serão desativados durante esse período, mas teremos um incremento da frota com a chegada dos novos helicópteros, compensando a perda relativa”, explicou o comandante.

O desafio está em realizar essa transição sem ampliar de maneira desproporcional a estrutura de pessoal. A Aviação precisa manter os Cougar disponíveis enquanto forma e consolida as competências necessárias para operar o HM-2A.


O planejamento da manutenção da capacidade operacional é conduzido em conjunto pelo Comando de Operações Terrestres (COTER) e pelo Estado-Maior do Exército (EME), com assessoramento do Comando de Aviação do Exército (CAvEx) e do Comando Logístico (COLOG).

Drones deixam de ser complemento e passam a integrar a manobra

Se a renovação dos helicópteros representa uma evolução importante na capacidade de manobra, os drones introduzem uma transformação ainda mais profunda na doutrina de emprego da Aviação do Exército.

O emprego de SARP pelo Exército Brasileiro já está em desenvolvimento, tendo começado com a Companhia de SARP do 1º Batalhão de Aviação do Exército. Em abril de 2026, a Portaria EME/C Ex Nº 1.720 estabeleceu a Diretriz de Iniciação do Projeto de criação do Núcleo do Batalhão de Aeronaves Remotamente Pilotadas, estrutura que deverá evoluir para o BARP.


A doutrina vem sendo construída a partir da observação de forças estrangeiras e principalmente do estudo dos conflitos recentes. O Centro de Instrução de Aviação do Exército também passou a estruturar programas de formação para os diferentes tipos de sistemas empregados pela Força.

No caso dos drones menores, a formação de multiplicadores nas brigadas permite ampliar a capacidade de treinamento e inserir a qualificação dos operadores no Sistema de Instrução Militar do Exército. Para os sistemas de maior porte, a formação permanece centralizada no CIAvEx, incluindo aspectos de emprego, doutrina e integração com as aeronaves tripuladas.

BARP deverá moldar o ambiente aéreo

A criação do BARP representa uma mudança importante na maneira como o Exército pretende utilizar seus sistemas remotamente pilotados. A ideia não é simplesmente multiplicar a quantidade de drones disponíveis, mas empregá-los de maneira coordenada para modificar as condições do espaço aéreo e criar oportunidades para as demais forças.

“Entendemos que o BARP irá operar drones das categorias 0, 1, 2 e 3, moldando o domínio aéreo e proporcionando aos SARP Categoria 3 liberdade para atuar nas ‘ações principais’, com grande alcance e letalidade”, afirmou General Amorim.

Essa concepção nasce diretamente das experiências observadas nos conflitos contemporâneos. O emprego de drones passou a ser associado principalmente à Inteligência, Reconhecimento, Vigilância e Aquisição de Alvos e aos ataques de precisão, mas a realidade operacional é mais complexa.

Para o comandante, as manobras de drones devem ser compreendidas como parte de uma arquitetura maior.

“Manobras de drones moldam o ambiente operacional para permitir as ações principais e ações em profundidade nos níveis tático e estratégico-operacional”, explicou.

Essa lógica pode ser aplicada tanto em operações diretamente relacionadas ao campo de batalha quanto em ações contra estruturas de importância estratégica.

Categoria 3 amplia alcance da Aviação

Dentro desse processo, os SARP Categoria 3 ocupam posição de destaque. O projeto está em andamento dentro do Subprograma Drones do Programa Estratégico Exército Aviação e Drones.

A intenção, no curto prazo, é adquirir sistemas de Categoria 3 compatíveis com os padrões da OTAN para emprego pela Força Terrestre. Os Requisitos Operacionais, Técnicos, Industriais e Logísticos já foram publicados e os potenciais fornecedores foram informados.

Entre as exigências estabelecidas está uma maturidade tecnológica superior ao grau 9, com sistemas comprovados em combate, capacidade comprovada de apoio de fogo e ausência de restrições internacionais que impeçam seu fornecimento ao Brasil.

O alcance estimado de até 1.000 quilômetros e a elevada autonomia projetada para esses sistemas representam uma mudança significativa na capacidade de projeção da Aviação do Exército.

Os novos SARP não deverão substituir os helicópteros. A proposta é complementar as capacidades existentes, permitindo que drones e aeronaves tripuladas atuem isoladamente, de forma coordenada ou integrados em uma mesma operação.

“Os novos sistemas atuarão de forma complementar aos helicópteros da Aviação do Exército, podendo atuar de forma isolada, em uma manobra de drones ou ainda em conjunto com plataformas tripuladas”, explicou.

Essa integração deverá ser particularmente relevante para ações de Direct Action e IRVA em profundidade, ampliando a capacidade de apoiar os objetivos da manobra terrestre.

Helicópteros e drones passam a formar um sistema integrado

A experiência dos conflitos recentes mostra que a divisão entre aeronaves tripuladas e sistemas não tripulados tende a perder importância. O que ganha relevância é a capacidade de integrar diferentes plataformas em uma mesma arquitetura operacional.

A proliferação de drones militarizados e comerciais transformou o campo de batalha em um ambiente muito mais transparente. Tropas, posições, deslocamentos e concentrações de meios estão mais expostos, aumentando a vulnerabilidade das forças.

A resposta, portanto, não pode ser simplesmente adquirir mais drones. É necessário estabelecer uma doutrina capaz de coordenar sensores, plataformas de ataque, sistemas de Comando e Controle e meios de guerra eletrônica, utilizando cada categoria de drone de acordo com sua função.

É justamente nesse ponto que o BARP ganha importância. A estrutura deverá permitir a utilização coordenada de diferentes categorias de SARP, inclusive em ondas, com a finalidade de saturar ou suprimir defesas aéreas adversárias e criar janelas de oportunidade para o emprego das aeronaves tripuladas.

Essa arquitetura poderá aumentar significativamente a liberdade de ação dos helicópteros, reduzindo parte dos riscos impostos por um ambiente aéreo cada vez mais contestado.

A ameaça dos próprios drones

A Aviação do Exército também trabalha sobre o outro lado desse problema: os drones como ameaça às suas próprias aeronaves. O desenvolvimento de capacidades de defesa contra sistemas remotamente pilotados envolve estudos de Comando e Controle, identificação e armamentos que poderão ser incorporados às aeronaves da AvEx. Segundo General Amorim, estão sendo avaliadas soluções para a defesa ativa e passiva das plataformas.

A preocupação é coerente com a evolução observada nos conflitos recentes, nos quais pequenos drones passaram a representar uma ameaça concreta inclusive contra plataformas que, tradicionalmente, eram consideradas mais protegidas. Para os helicópteros, isso significa rever procedimentos, treinamento e técnicas de emprego.

Simulação ganha espaço no treinamento

A preparação das tripulações também está sendo modificada. O uso de simuladores deverá assumir papel cada vez maior na formação e no aperfeiçoamento dos militares, permitindo reproduzir situações complexas que seriam difíceis ou excessivamente dispendiosas de serem treinadas exclusivamente em voo real.

Os treinamentos deverão incorporar cenários inspirados nos conflitos contemporâneos, incluindo a presença de drones hostis contra formações de helicópteros, tanto no solo quanto durante o voo, isoladamente ou em enxames. Esses cenários exigem das tripulações capacidade de reação rápida e tomada de decisão sob pressão.

“Essas situações demandam rápidas reações e decisões das tripulações”, destacou o comandante.

A construção de bancos de imagens e a utilização de ambientes virtuais também deverão contribuir para preparar as equipes para identificar ameaças antes que elas sejam capazes de comprometer a missão.

Inteligência artificial entra na equação

A transformação não se limita às plataformas. A Aviação também avalia o emprego de inteligência artificial, especialmente nas áreas de Inteligência de Imagens, Comando e Controle, seleção e formação de pessoal. Os projetos do SARP Categoria 3 e do BARP já consideram essas tecnologias dentro de seu planejamento.

Inicialmente, os primeiros operadores deverão ser selecionados entre pilotos de helicópteros, enquanto oficiais formados no Curso de Observador Aéreo do Exército também deverão integrar outras equipes.

Com o amadurecimento da atividade e a consolidação dos níveis de segurança necessários, o Exército poderá avaliar a criação de uma formação específica para pilotos de drones, sem exigir necessariamente uma formação anterior como piloto de aeronaves tripuladas. Esse processo mostra que a transformação da Aviação do Exército envolve também uma mudança no perfil profissional necessário para operar seus sistemas.

Sábado Aéreo aproxima a Aviação do Exército da sociedade

Se no campo operacional a Aviação do Exército trabalha para ampliar suas capacidades diante do ambiente cada vez mais complexo, no relacionamento com a sociedade a prioridade também é aproximar a instituição do cidadão.

O Sábado Aéreo realizado em 29 de agosto, se consolidou como uma das principais iniciativas nesse sentido, permitindo que o público conheça de perto os meios, as missões e o cotidiano da Aviação do Exército.

Segundo General Amorim, essa aproximação possui um significado que ultrapassa o caráter recreativo do evento.

O Sábado Aéreo é uma oportunidade de mostrar à sociedade o que é a Aviação do Exército, o que ela faz e qual é a sua importância para a Força Terrestre”, explicou.

Mais de 60 mil pessoas visitaram as instalações da Aviação do Exército durante as atividades abertas ao público. Para o comandante, receber a sociedade dentro das organizações militares permite estabelecer um contato direto com aqueles que muitas vezes conhecem a instituição apenas por imagens ou informações divulgadas pelos meios de comunicação.

“O evento permite que as pessoas conheçam nossas aeronaves, nossas capacidades e principalmente o nosso pessoal. É uma oportunidade de vivenciar um pouco do ambiente da Aviação do Exército, conhecer nossa história e compreender a nossa missão”, destacou General Amorim.

A iniciativa também possui uma dimensão de integração. Ao abrir suas portas, a Aviação cria um espaço para que crianças, jovens, famílias e entusiastas tenham contato com a atividade militar de maneira organizada, conhecendo não apenas as aeronaves, mas também os valores que orientam aqueles que operam e mantêm esses meios.

Essa aproximação ajuda a fortalecer os vínculos entre as Forças Armadas e a sociedade, permitindo que o cidadão compreenda melhor o papel desempenhado pelo Exército, e particularmente, pela Aviação do Exército.

A edição deste ano ganhou um significado adicional por ocorrer no contexto dos 40 anos da recriação da Aviação do Exército. Dessa forma, o Sábado Aéreo representou não apenas uma oportunidade de apresentar aeronaves e capacidades, mas também de compartilhar com a sociedade parte da trajetória construída pela AvEx e mostrar como essa estrutura vem se preparando para os desafios futuros.

Uma nova arquitetura para o combate

As respostas de General Amorim deixam claro que a transformação da Aviação do Exército não está concentrada em um único projeto. O HM-2A representa a renovação da capacidade de manobra. Os SARP ampliam a capacidade de observação e atuação em profundidade. O BARP deverá organizar e coordenar diferentes categorias de drones. A inteligência artificial e o Comando e Controle deverão aumentar a velocidade de processamento e decisão. A simulação permitirá preparar as tripulações para ambientes mais complexos.

Ao mesmo tempo, a Aviação trabalha para preservar a disponibilidade de sua frota e elevar sua prontidão logística, condição indispensável para que toda essa arquitetura funcione.

Entre as prioridades apresentadas pelo comandante estão preservar a capacidade de manobra, ampliar a capacidade de combate por meio de aeronaves multimissão para Direct Action e IRVA, implementar o BARP, aperfeiçoar o treinamento técnico e tático com o uso de simuladores e elevar a disponibilidade da frota e a prontidão logística.

O objetivo final é permitir que a Aviação do Exército continue cumprindo sua função de proporcionar mobilidade e capacidade de combate à Força Terrestre mesmo em um ambiente no qual o domínio aéreo se torna cada vez mais disputado.

Nesse sentido, a transformação em curso na Aviação do Exército pode representar uma mudança de paradigma: de uma força essencialmente centrada na plataforma tripulada para uma estrutura multidomínio, na qual helicópteros e sistemas não tripulados atuam de forma complementar para produzir efeitos sobre o campo de batalha.

O resultado esperado é uma Aviação mais conectada, mais distribuída e capaz de operar em um ambiente no qual a superioridade aérea local não pode mais ser presumida. Essa evolução terá impacto direto sobre a capacidade de manobra da Força Terrestre e em última instância, sobre a própria capacidade brasileira de dissuasão.


por Angelo Nicolaci


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