O 11 de setembro de 2001 marcou o início de uma transformação que ultrapassou em muito a tragédia de quase três mil pessoas mortas em solo americano. Naquele momento, os Estados Unidos eram a potência dominante de uma ordem internacional que parecia incontestável. A União Soviética havia desaparecido, Washington possuía uma superioridade militar sem equivalente e a economia americana ocupava posição central no sistema global. Vinte e cinco anos depois, os Estados Unidos continuam sendo uma superpotência, mas já não ocupam uma posição de supremacia incontestável. Entre uma realidade e outra existe uma sequência de guerras, intervenções, erros de cálculo e oportunidades aproveitadas por outros atores.
A primeira resposta americana ao ataque tinha um objetivo compreensível: destruir a estrutura da Al-Qaeda e eliminar a capacidade de seus responsáveis de utilizar o Afeganistão como base. A operação inicial alcançou resultados militares rápidos. O problema começou quando a resposta deixou de ser uma campanha delimitada contra uma organização terrorista e passou a representar uma estratégia muito mais ampla de transformação política pela força.
A invasão do Iraque em 2003, foi o momento decisivo dessa mudança. Saddam Hussein foi derrubado sob a justificativa de que o regime iraquiano representava uma ameaça relacionada a armas de destruição em massa. Essas armas não foram encontradas. A operação que deveria remover uma ameaça e produzir uma nova ordem política acabou contribuindo para desorganizar o Estado iraquiano, alimentar conflitos sectários e criar condições para o crescimento de grupos extremistas. A guerra também consumiu enormes recursos americanos e produziu um desgaste internacional que ultrapassou o campo militar. A invasão ocorreu sem autorização do Conselho de Segurança da ONU, agravando a contestação internacional à estratégia de Washington.
O Afeganistão apresentou outro problema. Os Estados Unidos conseguiram derrubar rapidamente o regime Talibã, mas permaneceram por duas décadas tentando construir instituições políticas, forças de segurança e um Estado capaz de sustentar a ordem criada pela intervenção. Em 2021, a retirada americana terminou com o retorno do Talibã ao poder. O episódio tornou-se uma das imagens mais contundentes dos limites da capacidade militar americana: vinte anos de ocupação, treinamento e investimentos não foram suficientes para garantir a permanência do governo que Washington havia ajudado a construir.
O padrão reapareceria em outros lugares, ainda que em circunstâncias diferentes. A intervenção internacional na Líbia em 2011, contribuiu para a derrubada de Muammar Kadafi, mas a eliminação do regime não foi acompanhada pela construção de uma estrutura política capaz de impedir a fragmentação do país. A Líbia passou a enfrentar anos de divisão entre governos, milícias e grupos armados, transformando-se também em uma importante fonte de instabilidade para o Norte da África e o Mediterrâneo.
A Síria mostrou outro aspecto da mesma dificuldade. A guerra civil que começou em 2011 transformou-se em conflito internacionalizado no qual Estados Unidos, Rússia, Türkiye, Irã e diferentes grupos armados passaram a disputar influência e território. Washington não perdeu apenas uma oportunidade de definir os acontecimentos: outros atores entraram no espaço deixado pela indecisão americana. A Rússia consolidou presença militar no Mediterrâneo oriental, o Irã ampliou sua rede regional e Türkiye passou a exercer influência direta sobre áreas próximas às suas fronteiras.
É importante não colocar todas essas crises na conta exclusiva dos Estados Unidos. A Primavera Árabe, as disputas internas, o sectarismo, o autoritarismo, os interesses regionais e a ação de outros governos tiveram papel próprio. Mas a questão estratégica está justamente naquilo que Washington fez, ou deixou de fazer, diante dessas transformações. A maior potência militar do mundo demonstrou repetidamente capacidade para destruir estruturas de poder, mas encontrou muito mais dificuldade para definir o que deveria existir depois delas.
Essa diferença entre capacidade de destruição e capacidade de construção é fundamental. Uma força militar pode conquistar uma capital em poucos dias. Pode destruir instalações, eliminar lideranças e derrubar um governo. Mas não consegue, apenas com superioridade aérea, forças especiais e tropas terrestres, criar legitimidade política, reconstruir instituições, reconciliar sociedades divididas ou produzir uma economia funcional.
O resultado foi uma espécie de sobre-extensão estratégica. Enquanto Washington concentrava recursos em conflitos no Oriente Médio e no Afeganistão, uma transformação histórica ocorria longe desses teatros de guerra. Em dezembro de 2001, poucos meses depois do 11 de setembro, a China ingressava na Organização Mundial do Comércio. A partir daí, o país acelerou sua integração à economia mundial, expandiu sua indústria, aumentou suas exportações, atraiu investimentos e acumulou capacidade tecnológica.
A coincidência temporal é importante. A China não ascendeu porque os Estados Unidos invadiram o Afeganistão e o Iraque. Sua transformação já estava em curso. Mas Washington passou os anos seguintes olhando para outra direção enquanto Pequim construía os elementos materiais necessários para disputar poder em escala global. Uma análise publicada pelo Wall Street Journal no aniversário de 25 anos do 11 de setembro chama atenção exatamente para esse custo de oportunidade: enquanto os EUA estavam concentrados nas guerras do Afeganistão e do Iraque, a China ampliava seu poder econômico e militar.
O contraste é ainda mais evidente quando se observa o tamanho dos recursos empregados. O projeto Costs of War da Brown University, calculou que as guerras posteriores ao 11 de setembro haviam custado aos Estados Unidos aproximadamente US$ 8 trilhões e provocado mais de 900 mil mortes até sua avaliação de 2021. O cálculo inclui operações militares, gastos associados e os conflitos abrangidos pelo estudo.
O problema não foi simplesmente gastar dinheiro em defesa. Grandes potências precisam investir em capacidade militar. A questão foi a relação entre o recurso empregado e o resultado estratégico obtido. Os Estados Unidos gastaram trilhões de dólares para combater organizações que jamais poderiam disputar convencionalmente a liderança mundial, enquanto a China ampliava sua capacidade industrial, tecnológica, comercial e militar sem precisar enfrentar diretamente o poder americano.
Foi uma assimetria estratégica extraordinária. Washington empregava porta-aviões, caças, satélites, forças especiais e sistemas de inteligência para perseguir grupos insurgentes e estabilizar países fragmentados. Pequim construía portos, ferrovias, fábricas, cadeias de fornecimento, infraestrutura digital e capacidade tecnológica. Um lado estava tentando administrar crises; o outro estava acumulando poder.
Outros atores perceberam rapidamente o espaço criado pela retração relativa americana. A Rússia recuperou parte de sua influência sobre áreas que haviam perdido importância para Washington após o fim da Guerra Fria. O Irã ampliou sua influência no Oriente Médio. Türkiye tornou-se uma potência regional com capacidade crescente de atuar no Oriente Médio, Cáucaso, Mediterrâneo, África e Ásia Central. Países do Golfo passaram a diversificar suas relações e reduzir a dependência exclusiva de Washington. A própria expansão dos BRICS refletiu uma busca mais ampla por alternativas à concentração de poder político e econômico ocidental.
A China foi, porém, o maior beneficiário estrutural dessa transformação. Pequim não precisava derrotar militarmente os Estados Unidos. Bastava continuar crescendo enquanto Washington gastava recursos e atenção em outros lugares. A China transformou sua posição de grande plataforma industrial em capacidade tecnológica, desenvolveu empresas globais, ampliou sua presença em infraestrutura e comércio e converteu crescimento econômico em poder militar.
Quando os Estados Unidos finalmente passaram a tratar a competição com a China como sua principal preocupação estratégica, o cenário já era muito diferente daquele de 2001. A China não era mais apenas um país de mão de obra barata. Era uma potência industrial, tecnológica, financeira e militar capaz de disputar com Washington setores fundamentais da economia global e de desafiar a presença americana no Indo-Pacífico.
É nesse ponto que o 11 de setembro pode ser interpretado como uma verdadeira virada histórica. O ataque não derrubou a hegemonia americana. A própria Al-Qaeda não alcançou seu objetivo de destruir o poder dos Estados Unidos. O que mudou foi a trajetória escolhida por Washington depois da tragédia.
A resposta americana mostrou ao mundo uma potência capaz de vencer guerras rapidamente, mas nem sempre capaz de transformar vitórias militares em resultados políticos duradouros. Iraque, Afeganistão e Líbia tornaram-se exemplos diferentes de um mesmo problema: remover um governo é relativamente simples quando comparado à tarefa de construir uma ordem estável em seu lugar.
E existe uma consequência ainda mais profunda. Ao tentar reorganizar o Oriente Médio e combater o terrorismo em escala global, os Estados Unidos perderam tempo estratégico em uma era na qual a distribuição do poder mundial estava mudando. A China aproveitou esse período para crescer. A Rússia recuperou espaço. Potências regionais ganharam autonomia. E países que durante décadas dependiam quase exclusivamente de Washington passaram a buscar alternativas.
Isso não significa que os Estados Unidos estejam em processo inevitável de desaparecimento como potência. Essa seria uma conclusão tão precipitada quanto imaginar em 2001, que sua superioridade seria permanente. O que existe é uma perda relativa de vantagem. A América continua possuindo forças armadas, universidades, empresas, capacidade financeira, tecnologia e uma rede de alianças sem equivalente completo no mundo. O que mudou foi a distância que separava os Estados Unidos dos demais.
O mundo pós-11 de setembro também mostrou que poder militar não é sinônimo de poder estratégico. Uma potência pode possuir a maior força militar do planeta e ainda assim produzir resultados contrários aos seus interesses quando utiliza essa força sem uma visão clara de longo prazo.
Talvez essa seja a maior lição daquele período. Os Estados Unidos não foram derrotados por Saddam Hussein, Kadafi, Bin Laden, Al-Qaeda ou Talibã. O desgaste americano resultou de algo mais complexo: uma combinação de guerras prolongadas, custos extraordinários, objetivos políticos difíceis de alcançar e uma subestimação da velocidade com que o sistema internacional estava mudando.
Enquanto Washington tentava reorganizar o mundo pela força, outros atores aprenderam a reorganizá-lo pela economia, pela tecnologia, pelo comércio, pela infraestrutura e pela influência diplomática.
Vinte e cinco anos depois do 11 de setembro, o resultado está diante de nós. O mundo que surgiu daquela tragédia é menos unipolar, mais fragmentado e mais competitivo. Os Estados Unidos continuam poderosos, mas já não definem sozinhos os limites da ordem internacional. E a China, que em 2001 ainda era vista principalmente como uma potência econômica em ascensão, tornou-se o principal competidor capaz de desafiar a posição americana.
O paradoxo histórico é que o maior desafio à hegemonia dos Estados Unidos não surgiu das montanhas do Afeganistão nem das ruas de Bagdá. Surgiu, em grande parte, das fábricas, dos portos, dos laboratórios e das universidades de um país que Washington não percebeu a tempo que estava deixando de ser apenas uma potência emergente.
O 11 de setembro mudou o mundo. Mas talvez sua consequência geopolítica mais profunda tenha sido menos aquilo que os terroristas conseguiram destruir e mais aquilo que a reação americana acabou deixando de construir.
por Angelo Nicolaci
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