quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Suécia recebe primeiros Archer 8×8 e amplia sua capacidade de artilharia móvel

 

A Suécia recebeu os quatro primeiros sistemas de artilharia autopropulsada Archer 8×8, dando início à incorporação de uma nova geração de meios de apoio de fogo às Forças Armadas do país. As unidades foram entregues pela Försvarets materielverk (FMV), agência sueca responsável pelas aquisições de defesa, serão empregadas inicialmente no treinamento.

O Archer 8×8 é uma evolução do Archer 6×6 já empregado pela Suécia. A principal mudança está na adoção de um caminhão blindado 8×8 como plataforma do sistema de armas, solução que amplia a mobilidade operacional e permite alcançar velocidades rodoviárias de até 90 km/h. A entrega das primeiras quatro unidades ocorreu em 26 de agosto, no campo de tiro de Villingsberg, próximo a Karlskoga.

A Suécia adquiriu inicialmente 48 sistemas Archer 8×8 junto a BAE Systems Bofors, com acordo firmado em 2023. Um pedido adicional elevou posteriormente a quantidade contratada, enquanto a entrega deverá ser concluída até 2030. Os primeiros sistemas serão empregados pelo Regimento de Artilharia A9 de Bergslagen, que também utilizará a nova plataforma na formação de seus operadores a partir do ciclo de instrução 2026–2027.

O Archer mantém o sistema de armas de 155 mm empregado pelo modelo 6×6, mas combina essa capacidade com uma plataforma mais adequada à mobilidade das forças terrestres contemporâneas. Segundo a FMV, o veículo pode atingir até 90 km/h em estrada, contra aproximadamente 50 a 60 km/h do Archer 6×6, proporcionando maior velocidade de deslocamento entre posições e melhor mobilidade operacional.

A capacidade de sobrevivência também está diretamente relacionada ao conceito de emprego do sistema. O Archer pode entrar e sair de uma posição de tiro em aproximadamente 20 segundos, enquanto sua cabine blindada mantém a guarnição protegida durante a operação. O sistema é capaz de realizar uma sequência de seis disparos, abandonar a posição e deslocar-se cerca de 500 metros em menos de dois minutos, reduzindo o tempo de exposição à artilharia de contrabateria.

O sistema emprega munições de 155 mm convencionais e pode utilizar munições de maior precisão, como a Excalibur, além da munição anticarro BONUS. Dependendo da munição empregada, o Archer 8×8 possui alcance superior a 50 quilômetros, colocando o sistema dentro da tendência de expansão do alcance e da precisão dos fogos de artilharia.

A experiência sueca acompanha uma transformação observada em diferentes forças armadas desde o início do século XXI. A artilharia deixou de ser estruturada apenas em torno do alcance e do volume de fogo e passou a depender cada vez mais da capacidade de detectar alvos, processar informações, executar rapidamente uma missão de tiro e mudar de posição antes da resposta inimiga. A guerra na Ucrânia reforçou esse conceito, colocando a sobrevivência dos sistemas de artilharia diante da contrabateria, dos drones e dos sensores adversários entre os principais requisitos operacionais.

Nesse contexto, sistemas sobre rodas ganharam espaço por combinarem mobilidade estratégica e tática, menor complexidade logística e capacidade de operar acompanhando forças mecanizadas. A lógica é simples: quanto menor o intervalo entre receber a missão, executar o disparo e abandonar a posição, maior a possibilidade de preservar a plataforma e sua guarnição. O Archer representa essa filosofia ao integrar mobilidade, proteção, automação, alcance e rapidez de emprego em uma única plataforma.

A experiência sueca e o desafio brasileiro

A evolução observada no Archer também dialoga diretamente com o processo de modernização da Artilharia de Campanha do Exército Brasileiro. O Programa Estratégico ASTROS passou a concentrar também ações relacionadas à modernização da artilharia de campanha, incluindo a revitalização dos M109 e o desenvolvimento do Sistema Digitalizado de Artilharia de Campanha (SISDAC), ampliando a integração entre comando, controle, aquisição de alvos e execução dos fogos.

É nesse cenário que permanece relevante o programa VBCOAP 155 mm SR. Em abril de 2024, o Exército selecionou o ATMOS 155 mm/52 da Elbit Systems, montado sobre o chassi Tatra 8×8, como vencedor do processo para aquisição de 36 obuseiros autopropulsados sobre rodas. A solução foi selecionada após atender aos requisitos estabelecidos pela Força, mas a contratação não avançou naquele momento.

As discussões retomadas em 2026 passaram a envolver uma possível participação da Avibras na montagem e integração do ATMOS no Brasil, em cooperação com a AEL Sistemas, ARES e a Elbit Systems. Também surgiu a possibilidade de associar ao projeto o sistema PULS, ampliando a discussão para uma arquitetura de fogos que combine artilharia de tubo, foguetes e mísseis.

A questão brasileira, portanto, vai além da escolha de um novo obuseiro. O desafio é construir uma capacidade de artilharia compatível com o campo de batalha atual, no qual alcance, precisão, mobilidade, consciência situacional, integração digital e sobrevivência são elementos inseparáveis. Nesse aspecto, a evolução do Archer 8×8 oferece uma referência importante para compreender por que a modernização da artilharia brasileira não pode ser tratada apenas como substituição de plataformas, mas como uma mudança mais ampla na forma de empregar o apoio de fogo.


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