quinta-feira, 13 de agosto de 2026

PFCT - Quarta Fragata Inicia Construção e Acende Alerta para o Segundo Lote

 

Batimento de quilha da quarta fragata classe Tamandaré ocorre na mesma semana em que a segunda inicia testes de mar, enquanto cresce a preocupação com a demora na contratação do segundo lote de fragatas pela Marinha do Brasil.

Nesta quinta-feira (13), a Marinha do Brasil e a Sociedade de Propósito Específico (SPE) Águas Azuis realizaram a cerimônia de batimento de quilha da Fragata “Mariz e Barros” (F203), quarta e última fragata do primeiro lote previsto pelo Programa Fragatas Classe Tamandaré (PFCT). O marco ocorre na mesma semana em que a Fragata “Jerônimo de Albuquerque” (F201), segunda unidade da classe, iniciou seus testes de mar,  enqianto isso, a terceira fragata, "Cunha Moreira" (F202), concluiu com sucesso sua fase de lançamento á água, evidenciando o avanço simultâneo das etapas de construção e certificação do mais importante programa de renovação da Esquadra brasileira das últimas décadas.

Realizada nas instalações do estaleiro da Águas Azuis em Itajaí, Santa Catarina, a cerimônia simboliza o início da construção estrutural da F203, consolidando mais uma etapa do cronograma que prevê a entrega de quatro modernas fragatas multimissão para a Marinha do Brasil.

Desenvolvido pela SPE Águas Azuis, formada por Embraer Defesa & Segurança, Thyssenkrupp Marine Systems (TKMS) e Atech, o Programa Fragatas Classe Tamandaré representa um dos maiores projetos de transferência de tecnologia já realizados pela indústria de defesa brasileira. Além da construção dos navios, o programa permitiu a absorção de conhecimentos avançados em engenharia naval, integração de sistemas de combate, gerenciamento logístico e construção digital de embarcações militares.

O avanço da F203 ocorre em momento particularmente relevante. Poucos dias antes, a Fragata “Jerônimo de Albuquerque” (F201) iniciou seus testes de mar, fase essencial para a validação de sistemas de propulsão, sensores, equipamentos de navegação e sistemas de combate antes de sua futura incorporação à Esquadra.

A simultaneidade desses dois marcos demonstra a maturidade alcançada pela linha de produção instalada em Itajaí. O estaleiro opera hoje com processos plenamente consolidados, mão de obra altamente especializada e uma cadeia de fornecedores que foi estruturada ao longo dos últimos anos para atender aos rigorosos requisitos de um programa naval de alta complexidade.

Mais do que novos navios para a Marinha, o PFCT tornou-se um vetor estratégico para o fortalecimento da Base Industrial de Defesa brasileira. Empresas nacionais passaram a integrar uma cadeia tecnológica de elevado valor agregado, enquanto profissionais brasileiros adquiriram conhecimentos que anteriormente eram restritos a poucos países com tradição na construção naval de defesa.

O risco da interrupção

Apesar dos avanços alcançados, cresce a preocupação em torno da ausência de uma definição sobre a contratação do segundo lote de fragatas.

A renovação dos meios de superfície da Marinha do Brasil permanece um desafio. Diversas embarcações aproximam-se do final de sua vida útil, enquanto as demandas operacionais associadas à proteção da Amazônia Azul e das rotas marítimas brasileiras continuam aumentando. Nesse contexto, a continuidade do Programa Fragatas Classe Tamandaré é vista por especialistas como um elemento fundamental para garantir a manutenção da capacidade naval do Brasil nas próximas décadas.

Contudo, a preocupação não se limita ao aspecto operacional. Sob a perspectiva industrial e econômica, o momento atual representa uma janela estratégica que está se fechando rapidamente. Após anos de investimentos, treinamento de pessoal e nacionalização de processos produtivos, a curva de aprendizado atingiu seu estágio mais eficiente. É justamente nesse momento que a continuidade da produção poderia proporcionar os maiores ganhos de produtividade e as melhores condições para redução dos custos unitários das futuras fragatas. Entretanto, parte dessa oportunidade já começou a ser perdida devido à demora na definição do segundo lote.

Caso uma decisão não seja tomada em curto prazo, o Brasil corre o risco de assistir à dispersão gradual da mão de obra especializada, à redução do ritmo da cadeia de fornecedores e à perda de parte das eficiências conquistadas durante a construção das quatro primeiras fragatas. O resultado será inevitável: custos mais elevados para futuras contratações.

Em outras palavras, o país investiu recursos significativos para desenvolver uma capacidade estratégica de construção naval militar moderna. Permitir que essa estrutura seja desmobilizada ou opere abaixo de sua capacidade significará não apenas riscos para a renovação da Esquadra, mas também um aumento expressivo dos valores necessários para qualquer expansão futura do programa.

A decisão que não pode esperar

Os acontecimentos desta semana deixam claro que o Programa Fragatas Classe Tamandaré atingiu sua maturidade industrial. Enquanto a F201 avança para sua fase de certificação no mar, a F202 concluiu com sucesso o lançamento ao mar, e a F203 ingressa oficialmente em sua etapa de construção, demonstrando que o Brasil consolidou uma capacidade que levou anos para ser construída.

A questão deixou de ser tecnológica ou industrial. O país já demonstrou que é capaz de construir e integrar navios de combate de alta complexidade. O desafio agora é garantir a continuidade desse esforço.

A contratação do segundo lote tornou-se uma necessidade estratégica para a Marinha do Brasil, para a Base Industrial de Defesa e para a preservação dos investimentos realizados ao longo da última década. Adiar essa decisão significa aceitar o risco da perda de capacidade, aumento de custos e redução da eficiência conquistada pelo programa.

O relógio está correndo. E cada mês sem uma definição reduz as vantagens da continuidade produtiva e aumenta a conta que o Brasil terá de pagar no futuro para manter viva uma capacidade estratégica que hoje finalmente alcançou sua plena maturidade.

Há, portanto, uma contradição que o próprio Governo precisará explicar. Em julho, durante sua visita à Avibras, o presidente Lula defendeu Forças Armadas “bem preparadas, bem treinadas” e afirmou que o País precisa estar preparado para proteger sua soberania. O discurso é claro, mas sua efetividade depende das decisões que vêm depois dele. Não é possível defender soberania, autonomia tecnológica e uma indústria de Defesa capaz de sustentar capacidades estratégicas enquanto programas dessa natureza continuam submetidos à imprevisibilidade orçamentária e investimentos aquém dos necessários.

No caso das Tamandaré, a conta dessa contradição pode ser particularmente alta. O Brasil chegou ao ponto em que precisa decidir se pretende consolidar a capacidade que construiu ou aceitar que ela se torne mais cara e mais difícil de preservar. O Memorando de Entendimento assinado no mês de abril, durante a entrega da "Tamandaré" (F200) ao setor operativo, abriu formalmente o caminho para mais quatro navios, mas ainda não resultou na contratação do segundo lote. Se a prioridade anunciada pelo Governo é realmente fortalecer a Defesa, o segundo lote da classe Tamandaré é uma oportunidade concreta para transformar esse discurso em decisão. Adiar essa escolha não elimina o gasto: apenas aumenta a possibilidade de que, amanhã, o País tenha de pagar mais para recuperar uma capacidade que hoje ainda consegue preservar.


Por Angelo Nicolaci


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