sábado, 8 de agosto de 2026

Grifo-F/BR x EL/M-2032: quando o desempenho dos radares contam apenas parte da história

 

A comparação entre os radares empregados pelo F-5M da FAB e pelo AF-1M da Marinha mostra que alcance de detecção não é sinônimo de capacidade de combate.

Quando dois radares entram em comparação, é natural que o primeiro dado que chame atenção seja o alcance. É objetivo, fácil de colocar lado a lado e cria rapidamente a impressão de que existe um vencedor. Mas, no combate aéreo, a história é bem mais complexa.

A comparação entre o Grifo-F/BR, empregado nos F-5M da Força Aérea Brasileira, e o EL/M-2032, instalado nos AF-1M "Skyhawk" da Marinha do Brasil, é um bom exemplo disso. Os dois sistemas foram escolhidos para modernizar aeronaves de gerações anteriores, mas responderam a requisitos diferentes e foram incorporados a arquiteturas de combate distintas.

EL/M-2032

A primeira diferença aparece justamente nos números divulgados para os dois sistemas. A Marinha do Brasil informa que o EL/M-2032 empregado no AF-1M possui modos ar-ar, ar-mar e ar-solo, além de capacidade de acompanhamento de alvos marítimos. Segundo a Força Naval, o radar pode alcançar até 128 quilômetros no modo ar-ar e até 256 quilômetros no rastreamento de alvos marítimos.

O Grifo-F/BR, por sua vez, equipa os F-5M modernizados pela FAB e integra um conjunto muito mais amplo de modificações realizadas na aeronave. O sistema oferece capacidade multimodo, incluindo operação look-down/shoot-down, e foi integrado à arquitetura de missão do caça e ao emprego de armamentos como o míssil ar-ar Derby. É nesse ponto que uma comparação baseada exclusivamente em alcance começa a apresentar suas limitações.

Um radar não possui um único alcance operacional. A distância na qual um contato pode ser detectado depende de fatores como a assinatura radar do alvo (RCS), seu aspecto em relação à aeronave, altitude, velocidade, condições do ambiente eletromagnético e o modo de operação utilizado pelo sensor.

Um alvo de grande assinatura, voando em determinada condição, poderá ser detectado a uma distância muito superior àquela obtida contra um alvo de menor assinatura RCS ou em outro aspecto. Por isso, números de alcance máximo não podem ser tratados como uma espécie de régua universal para definir qual radar é superior. E existe outro detalhe ainda mais importante: detectar não é o mesmo que combater.

A detecção é apenas o primeiro elo de uma cadeia que envolve acompanhamento, classificação, identificação, geração de solução de tiro, transferência de informações, decisão de engajamento e emprego do armamento.

Um radar pode enxergar mais longe, mas isso não significa automaticamente que a aeronave terá uma vantagem proporcional no combate. É justamente por isso que o contexto de cada programa de modernização precisa ser considerado.

No caso do AF-1M, o EL/M-2032 foi incorporado a uma plataforma cuja modernização buscou ampliar significativamente as capacidades do antigo A-4KU Skyhawk. A aeronave recebeu novos sistemas de missão, cockpit digital, guerra eletrônica, comunicações e outros equipamentos, além do novo radar.

A capacidade de trabalhar nos modos ar-ar, ar-mar e ar-solo é particularmente relevante para uma aeronave destinada a operar dentro da estrutura da Aviação Naval e no ambiente onde o domínio marítimo é parte central do cenário operacional. O F-5M seguiu outra lógica.

A FAB precisava manter operacionalmente relevante uma frota de aeronaves concebidas décadas antes, transformando-as em plataformas capazes de operar em um ambiente de combate muito diferente daquele para o qual haviam sido originalmente projetadas.

GRIFO-F

O programa de modernização incorporou o radar Grifo-F/BR e também novos aviônicos, computador de missão, sistemas de guerra eletrônica, comunicações, data-link e capacidade de empregar armamentos modernos.

O resultado não foi simplesmente um F-5 com um radar novo. Foi uma nova arquitetura de missão instalada sobre uma plataforma antiga. Essa diferença é fundamental para compreender por que não faz sentido afirmar que o F-5M é inferior ao AF-1M apenas porque os números divulgados para o alcance do radar são diferentes.

O radar do caça precisa ser analisado dentro do sistema de combate ao qual pertence. E, no caso da FAB, isso nos leva diretamente ao E-99M.

A defesa aérea brasileira foi estruturada para operar com diferentes sensores e plataformas trabalhando de forma integrada. As aeronaves de alerta antecipado e controle aéreo ampliam a consciência situacional e permitem que os caças recebam informações sobre o ambiente operacional que vão muito além daquilo que conseguiriam obter apenas com o sensor instalado na própria aeronave. Isso muda completamente a interpretação sobre o F-5M.

A ideia de que o caça estaria praticamente “cego” sem o E-99 parte de uma visão na qual cada aeronave precisaria construir sozinha toda a imagem do campo de batalha. Não é essa a lógica da guerra aérea moderna.

Em uma arquitetura conectada, o caça continua utilizando seu próprio radar. Ele precisa detectar, acompanhar e atuar sobre os contatos que estejam dentro de sua capacidade. Mas pode receber informações de outras plataformas e sistemas, reduzindo o tempo necessário para procurar determinado setor e aumentando sua consciência sobre o cenário.

O E-99, portanto, não existe para compensar uma suposta incapacidade absoluta do radar do F-5M. Ele existe porque uma aeronave de alerta antecipado exerce uma função diferente e complementar, produzindo uma visão muito mais ampla do espaço aéreo e contribuindo para coordenar as aeronaves de combate.

O mesmo raciocínio vale para o armamento. A presença do Derby no F-5M representa uma mudança importante em sua capacidade de combate além do alcance visual. Mas o míssil não deve ser analisado isoladamente.

Para que uma arma BVR seja empregada de maneira eficiente, é necessário combinar informações de sensores, processamento, consciência situacional, comunicação e uma solução de engajamento adequada. A capacidade de combate nasce dessa combinação. É por isso que o debate sobre Grifo-F/BR e EL/M-2032 é mais interessante do que parece.

A Marinha escolheu um radar com características adequadas às necessidades do AF-1M e ao ambiente em que a aeronave deveria operar. A FAB adotou outra solução para o F-5M, dentro de um programa que buscava transformar uma plataforma antiga em um caça capaz de permanecer relevante na defesa aérea brasileira.

Não são necessariamente escolhas comparáveis em uma escala simples de “melhor” ou “pior", são respostas diferentes para problemas diferentes. Isso não significa ignorar as diferenças entre os sistemas.

O EL/M-2032 apresenta características de alcance e modos de operação que o tornam uma solução relevante para o AF-1M, especialmente na atuação sobre o ambiente marítimo. O Grifo-F/BR, por outro lado, foi incorporado a uma arquitetura de combate na qual o radar é apenas uma das ferramentas disponíveis ao F-5M.

É justamente essa diferença entre sensor e sistema de combate que costuma desaparecer quando a discussão fica restrita às fichas técnicas. O radar é importante, muito importante, mas ele não luta sozinho.

A aeronave precisa transformar a informação obtida pelo sensor em consciência situacional. Essa informação precisa ser processada, compartilhada quando necessário e utilizada para orientar uma decisão. Depois, o armamento precisa ser capaz de transformar essa decisão em efeito.

Nesse ponto, o F-39E Gripen introduz uma mudança de patamar na FAB. A incorporação de um caça equipado com radar AESA, sistemas avançados de guerra eletrônica, sensores modernos, processamento mais poderoso e elevada capacidade de integração em rede representa uma mudança geracional em relação ao F-5M.

Mas isso não apaga a lógica pela qual o F-5M foi modernizado. O programa não pretendia transformar o F-5 em um caça de quinta geração. Pretendia extrair o máximo de uma plataforma existente e mantê-la capaz de cumprir suas funções dentro da estrutura de defesa aérea brasileira. É justamente por isso que comparar apenas o alcance dos radares pode produzir uma conclusão errada.

O EL/M-2032 pode apresentar números superiores em determinadas condições e modos de operação. Isso é uma informação relevante. Mas a pergunta operacional não termina aí, o que importa é o que aquela informação permite fazer.

Um radar que detecta um contato precisa estar conectado a um sistema capaz de transformar aquela detecção em consciência situacional e, posteriormente, em capacidade de engajamento.

É nesse ponto que a comparação entre Grifo-F/BR e EL/M-2032 deixa de ser apenas uma disputa entre dois equipamentos e passa a revelar duas formas diferentes de construir capacidade de combate.

No fim, os números contam apenas uma parte da história. O verdadeiro valor de um radar aparece quando ele deixa de ser apenas um sensor e passa a funcionar como parte de um sistema de combate. É nessa integração entre radar, guerra eletrônica, comunicações, data-link, armamento, plataforma e operador que se mede a capacidade real de uma aeronave.

E é justamente por isso que, quando colocamos Grifo-F/BR e EL/M-2032 lado a lado, a pergunta mais interessante não é simplesmente qual deles enxerga mais longe. É entender o que cada um permite que o vetor faça com aquilo que conseguiu enxergar.


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