O Exército Brasileiro segue avançando na implementação da Força 40, projeto estratégico que estabelece as bases para a transformação da Força Terrestre até 2040. Mais do que um programa de modernização de equipamentos, a iniciativa busca adaptar a instituição às mudanças observadas no ambiente operacional contemporâneo, marcado pela convergência entre novas tecnologias, disputas no espaço cibernético, competição geopolítica e conflitos multidomínio.
Nesse contexto, o Departamento-Geral do Pessoal (DGP) promoveu, entre os dias 22 e 24 de julho, o Workshop sobre Gestão do Pessoal para a Força 40, reunindo oficiais-generais, especialistas e representantes de diversas Organizações Militares para discutir os desafios relacionados à dimensão humana da transformação institucional.
O evento teve como objetivo desenvolver propostas voltadas ao fortalecimento da gestão de recursos humanos, reconhecendo que a evolução tecnológica somente produzirá os resultados esperados se acompanhada por mudanças na formação, capacitação e gestão do efetivo responsável por operar os novos sistemas e conduzir as operações do futuro.
A palestra de abertura foi ministrada pelo especialista em Gestão e Inovação Tecnológica pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Dr. Marcello José Pio, pesquisador com ampla experiência em estudos prospectivos e planejamento estratégico, que abordou os impactos das transformações tecnológicas e sociais sobre as organizações e os desafios impostos às instituições de defesa nas próximas décadas.
Durante os três dias de atividades, os participantes debateram quatro áreas consideradas prioritárias para o processo de transformação: capital humano e os objetivos da Força 40, mudanças geracionais, incorporação de tecnologias emergentes, incluindo inteligência artificial e saúde digital, e temas relacionados à sustentabilidade e à governança institucional. Além das palestras, grupos de trabalho e plenárias permitiram consolidar propostas destinadas a subsidiar futuras diretrizes para a gestão de pessoal do Exército Brasileiro.
A iniciativa contou com a participação do Chefe do Departamento-Geral do Pessoal, General de Exército Luiz Fernando Estorilho Baganha, além de oficiais-generais de órgãos setoriais, diretores e outras autoridades envolvidas na condução do processo de transformação da Força Terrestre.
Política de Transformação orienta a construção da Força 40
A Força 40 está estruturada sobre a Política de Transformação do Exército Brasileiro (EB10-P-01.031), aprovada pela Portaria C Ex nº 2.662, de 9 de abril de 2026, documento que estabelece as diretrizes para acelerar a adaptação da instituição às exigências operacionais das próximas décadas.
A política define quatro eixos estruturantes: reorganização institucional, desenvolvimento de capacidades, evolução doutrinária e valorização do fator humano. Entre as mudanças previstas está a reorganização das forças em diferentes níveis de emprego, contemplando Forças de Emprego Imediato, Forças de Emprego de Prontidão, Forças de Emprego Continuado, Forças de Emprego no Multidomínio e Módulos de Apoio Ampliado, modelo que busca ampliar a flexibilidade operacional e a capacidade de resposta diante de diferentes cenários de crise.
Essa reorganização acompanha a evolução do ambiente estratégico internacional, no qual os conflitos passaram a ocorrer simultaneamente em múltiplos domínios operacionais. Além das operações terrestres convencionais, as forças armadas modernas precisam atuar em ambientes cibernéticos, eletromagnéticos, espaciais e informacionais, enfrentando ameaças híbridas que frequentemente se desenvolvem abaixo do limiar de uma guerra declarada.
A dimensão humana como fator decisivo
Embora tecnologias como inteligência artificial, sensores inteligentes, sistemas autônomos e veículos não tripulados ocupem posição central na transformação das forças armadas ao redor do mundo, o Exército Brasileiro destaca que a adaptação institucional depende, sobretudo, da preparação de seu efetivo.
A gestão do conhecimento, a qualificação permanente, a retenção de talentos e a formação de profissionais capazes de operar sistemas cada vez mais complexos passam a constituir elementos essenciais para o sucesso da Força 40. Dessa forma, a transformação não se limita à incorporação de novas capacidades tecnológicas, mas envolve uma revisão abrangente da estrutura organizacional, dos processos decisórios e da formação dos recursos humanos.
Análise do GBN
A implementação da Força 40 representa uma das mais importantes iniciativas de transformação institucional conduzidas pelo Exército Brasileiro nas últimas décadas. Diferentemente de programas voltados exclusivamente à aquisição de equipamentos, a proposta busca alinhar organização, doutrina, capacidades e pessoal às características do ambiente operacional previsto para as próximas décadas.
Os conflitos recentes evidenciaram que superioridade tecnológica, por si só, não garante vantagem estratégica. A capacidade de integrar informações em tempo real, operar em ambiente multidomínio, adaptar rapidamente estruturas organizacionais e preparar recursos humanos qualificados tornou-se tão importante quanto a incorporação de novos sistemas de armas.
Nesse contexto, a realização do workshop pelo Departamento-Geral do Pessoal demonstra que o Exército Brasileiro reconhece a dimensão humana como um dos pilares da transformação institucional. Ao incorporar temas como inteligência artificial, mudanças geracionais, saúde digital e inovação à gestão de pessoal, a Força Terrestre busca construir as bases para uma força mais preparada para responder aos desafios operacionais e tecnológicos que deverão caracterizar os cenários de defesa até 2040.
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