quinta-feira, 9 de abril de 2026

Editorial: "Soberania não se improvisa: sem continuidade, o Brasil arrisca perder sua própria capacidade de defesa"

Os fatos estão postos e desta vez são inegavelmente positivos. A primeira fragata da Classe Tamandaré foi integralmente construída no Brasil, em Itajaí, consolidando um modelo que alia construção local, absorção tecnológica e fortalecimento da Base Industrial de Defesa. Já transladada para o Rio de Janeiro, a fragata se aproxima do momento decisivo, com a mostra de armamento prevista para 24 de abril, etapa que marca sua entrega ao setor operativo da Marinha do Brasil.

No âmbito do PROSUB, o avanço é ainda mais evidente. O Brasil já conta com três submarinos: Riachuelo (S-40), Humaitá (S-41) e Tonelero (S-42), incorporados ao setor operativo, enquanto o Almirante Karam (S-43) avança para a fase final de testes, com expectativa de entrega ainda este ano.

Na aviação de combate, o F-39E Gripen começa a deixar de ser promessa para se tornar realidade concreta. Das 36 aeronaves contratadas, 11 já foram entregues até março de 2026, incluindo o primeiro exemplar construído no Brasil, dentro de um processo robusto de transferência de tecnologia conduzido com a sueca Saab.

No Exército, o programa da viatura blindada VBTP-MR Guarani segue avançando, mesmo diante de limitações orçamentárias. A plataforma evolui com novas versões e aplicações, como o Guarani de Engenharia apresentado pela IDV, demonstrando maturidade e potencial de expansão.

À primeira vista, o cenário é positivo. Mas é justamente aqui que começa o ponto crítico. Tudo isso representa apenas o início de uma capacidade, não a sua consolidação.

O Brasil conseguiu estruturar, talvez pela primeira vez de forma consistente, um conjunto de programas que criam base tecnológica, industrial e operacional. Mas sem continuidade, essa base não se sustenta. E mais do que isso: sem estratégia de exportação e inserção internacional, ela não se viabiliza economicamente.

É aqui que o debate precisa evoluir. No cenário internacional, essa lógica já foi plenamente compreendida por outros atores médios e emergentes que transformaram defesa em política de Estado e também em instrumento de projeção global e economica.

A Türkiye, a Coreia do Sul, a Índia e os Emirados Árabes Unidos são exemplos claros dessa abordagem. Esses países investem simultaneamente na soberania operacional e na construção de uma indústria de defesa exportadora, capaz de sustentar seus próprios ciclos de desenvolvimento tecnológico. O resultado é um ecossistema em que a defesa não é apenas consumo estatal, mas um setor econômico competitivo globalmente.

Nesses países, exportação não é consequência, é estratégia central. Ao inserir seus produtos no mercado internacional, eles ampliam a escala industrial, diluem custos de desenvolvimento, financiam novos ciclos de inovação e ainda transformam sua base industrial em ferramenta de influência geopolítica. A exportação, nesse contexto, não apenas sustenta a indústria, ela também reforça a dissuasão estratégica e amplia o alcance da política externa, além de fortalecer sua economia.

Em outras palavras, a indústria de defesa deixa de ser apenas um custo estatal e passa a ser um ativo estratégico nacional.

No caso do PROSUB, não basta concluir os quatro submarinos. É necessário avançar para novos lotes e, sobretudo, alinhar com a Naval Group uma estratégia clara de oferta dos submarinos da classe Riachuelo (S-BR) para mercados da América Latina e outros países emergentes. Sem exportação, não há escala. Sem escala, não há sustentabilidade.

O mesmo raciocínio se aplica ao VBTP-MR Guarani. O programa precisa deixar de ser apenas um vetor de dotação interna e se consolidar como produto de exportação. O potencial existe, falta estrutura de apoio governamental, financiamento e estratégia comercial coordenada.

Na aviação, o Brasil já está inserido na cadeia global do F-39E Gripen, mas ainda de forma limitada. É fundamental ampliar a participação nacional em contratos internacionais conduzidos pela Saab, como ocorre em campanhas no exterior. Sem essa ampliação, o país permanece como parceiro periférico em um programa no qual já domina capacidades relevantes.

No campo naval, a continuidade da Classe Tamandaré é essencial, mas não suficiente. O Brasil precisa planejar a expansão da classe, com um novo lote de pelo menos mais quatro unidades, e paralelamente, estruturar um novo programa para obtenção de fragatas de maior porte, na faixa de 6.000 toneladas, compatíveis com o atual cenário de combate naval e com as demandas de uma marinha que pretende atuar de forma efetiva no Atlântico Sul.

Essa visão precisa ser acompanhada de algo ainda mais estruturante: tornar a indústria de defesa brasileira competitiva no mercado externo.

Isso passa necessariamente por políticas públicas. O governo precisa criar mecanismos de financiamento, garantias e apoio à exportação para produtos como o Embraer KC-390 Millennium e o A-29 Super Tucano. São plataformas comprovadas, com mercado internacional consolidado, mas que ainda enfrentam concorrência apoiada por fortes políticas estatais.

No caso do Super Tucano, inclusive, é fundamental investir no desenvolvimento de uma nova versão, atualizada e alinhada às demandas contemporâneas, mantendo sua relevância para um mercado cada vez mais competitivo.

E há um ponto que precisa ser tratado com franqueza absoluta: não adianta adquirir sem ter capacidade de operar.

A realidade operacional mostra que, mesmo com meios modernos como o Embraer KC-390 Millennium, há limitações decorrentes da falta de recursos para manutenção e operação. Aeronaves deixam de voar por ausência de insumos, peças e previsibilidade orçamentária. Isso não é um detalhe. É um problema estrutural.

Defesa exige previsibilidade. Exige ciclos de manutenção planejados. Exige financiamento contínuo. Sem isso, qualquer capacidade adquirida se degrada rapidamente.

O Brasil não tem problema de projeto. Não tem problema de tecnologia. Não tem problema de capacidade industrial. Tem problema de continuidade, de visão estratégica de politicas de Estado.

Sem novos lotes, não há escala. Sem escala, não há exportação. Sem exportação, não há indústria competitiva. E sem indústria competitiva, não há autonomia.

O Congresso Nacional e o Senado precisam compreender que defesa não é gasto eventual. É investimento estruturante, com impacto direto na soberania, na indústria e na inserção internacional do país. Interromper ou finalizar programas agora é desperdiçar bilhões já investidos e comprometer décadas de avanço.

O Brasil já cometeu esse erro antes. Repeti-lo neste momento, quando finalmente começa a consolidar uma base industrial de defesa relevante, não é apenas um equívoco. É uma escolha, e escolhas têm consequências.

Projetos estratégicos não são eventos. São ciclos contínuos, que exigem escala, previsibilidade e compromisso de longo prazo. Porque, no fim, a verdade permanece simples e incômoda: soberania não se improvisa. E definitivamente não se constrói com interrupções.



Por Angelo Nicolaci


GBN Defense - A informação começa aqui

Nenhum comentário:

Postar um comentário