quinta-feira, 11 de agosto de 2011

"Brasil merece ser reconhecido por não ter bomba", diz especialista



Um mundo livre de armas nucleares é um sonho hippie e uma necessidade estratégica num planeta em que a bomba atômica se consolida como solução rápida e barata para estados falidos e organizações terroristas, argumenta um grupo pró-desarmamento chamado Global Zero.

Num cenário geopolítico dominado por potências nucleares é preciso que países persuadidos na não-proliferação nuclear tenham sua posição reconhecida politicamente, opina Richard Burt, negociador-chefe da organização nos Estados Unidos. O grupo reúne o apoio de ex-presidentes, diplomatas e militares para fazer lobby pelo desarmamento e organizar um acordo multilateral entre países com armas atômicas.

Em entrevista à Folha, o ex-embaixador que negociou o tratado de redução entre URSS e EUA em 1991 defende a vaga do Brasil no Conselho de Segurança da ONU e diz que o interesse regional de países como Índia e China pode fazer o tema avançar. Mas primeiro é necessário que Rússia e EUA reduzam seus arsenais mais do que o previsto em acordo de desarmamento renovado seis meses atrás.


Folha - A meta de Zero Armas para 2030 não é irreal?

Richard Burt - Acho que não é uma questão exata de datas. Mas as armas nucleares estão virando armas de estados fracos, falidos e ambicionadas por terroristas. Os problemas do armamento nuclear hoje estão com o Irã, Coreia do Norte, Paquistão --esse último um país com um governo com cada vez menos poder e sérias ameaças terroristas.

Hoje países da Otan, aliança militar do Ocidente, bombardeiam a Líbia, o Afeganistão e o Iraque. Não é melhor ser uma Coreia do Norte nuclear do que uma Líbia com minas terrestres?

Acho que você está exagerando. Nesse casos, todo os países deveria ter armas nucleares. Eu adoraria uma solução mágica e convencer a todos a viverem em paz, onde não existisse nações fortes e fracas. Mas não é o caso. Um mundo com 30 ou 40 nações com armas nucleares é muito perigoso.

A crise do Japão favoreceu a campanha contra as armas nucleares?

Ela trouxe o medo, a compreensão do terror da ameaça nuclear. Em alguma medida, ela foi útil. Mas nosso grupo é focado. Não podemos resolver todos os problemas. Temos que focar na questão da arma nuclear.

O Brasil quer um assento no Conselho de Segurança e argumenta que não pode ser punido por não ter uma arma nuclear.

Concordo completamente. Esse é um argumento muito forte e deve ser feito no caso do Brasil. Se o Brasil fosse trazido para o Conselho de Segurança, seria um reconhecimento, enviaria um sinal muito poderoso ao mundo. Mas acho o Brasil esperto. Ele entendeu que o poder militar flui para o econômico. Os Estados Unidos estão muito dependentes do poder militar. Os emergentes entenderam a importância do poder econômico.

Enquanto se fala do nuclear, Estados Unidos e China devolvem novas armas, como o Prompt Global Strike.

Você precisa ser prático. Não vamos mudar a natureza humana. Os países vão continuar a modernizar suas armas, com drones, por exemplo. Não se trata de pensar num mundo sem armas. Temos que focar na questão nuclear.

Há novos países engajados na desativação das ogivas ou ainda é algo do pós-Guerra Fria.

Dois países mostram avanço. Índia, que está muito desconfortável com a ameaça paquistanesa e interessada na sabedoria do Global Zero. O outro é a China, que não construiu um arsenal muito grande e abraçou a ideia de não ser o primeiro a usar a arma nuclear. Se todos assumissem esse compromisso, de não ser o primeiro, a necessidade dessas armas iria desaparecer.

Há exemplos de monitoramento que sirvam de base para os projetos do Global Zero.

Sim. O Japão por exemplo, um país que lida com a energia nuclear de uma maneira muito transparente. As agências estão satisfeitas. A Rússia começa a ter serviços de enriquecimento. Há muito comércio nuclear. Com isso podemos fortalecer a Agência Internacional de Energia Atômica, criar um banco internacional de material enriquecido e inspeções mútuas nas quais todos confiem. O problema do Irã, por exemplo, é que não há confiança no país.

Seria possível replicar o modelo entre Brasil e Argentina para outras vizinhanças?

É um modelo muito interessante. Se fizéssemos um avanço significativo do que foi o último TNP, poderíamos levar as inspeções mútuas para o Oriente Médio. No caso de Israel, o país poderia deixar de ter armas nucleares sem nunca admitir publicamente que as possui.

A negociação com os soviéticos traz exemplos para as de hoje?

Os russos se opunham à verificação, queriam manter seus arsenais e fazer reduções cosméticas. Mas em um período de três anos conseguimos redução de 50% e muito mais transparência do que todos pensavam. As pessoas ficam impressionadas com o que ocorre quando há vontade política, quando se coloca os líderes juntos, (Barack) Obama, (Dmitri) Medvedev, Hu Jintao.

E eles têm essa vontade?

Acho que Obama tem. Ele trouxe o assunto de volta para a agenda internacional. Embora, os outros líderes, ainda acho que vão dar mais trabalho ao Obama e a outros lideres internacionais. Medvedev deu uma resposta melhor do que achei que daria. Com o avanço das reduções dos EUA e Rússia, a segunda fase seria chamar outros países nucleares, como França e China, em conversas verdadeiramente multilaterais. Isso não ocorreria em seis meses, mas ao longo do tempo serão criados padrões de conversas e confiança entre os países.

Fonte: Folha

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