sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O mundo redescobre a guerra industrial e expõe a fragilidade das grandes potências

Durante décadas, a guerra foi tratada por muitas potências como um evento limitado, rápido e tecnologicamente controlável. Conflitos seriam vencidos por precisão, informação e superioridade tecnológica, enquanto a dimensão industrial da guerra parecia um conceito do passado. Os acontecimentos recentes no cenário internacional desmontaram essa ilusão. O mundo redescobriu a guerra de atrito, e com ela veio uma constatação incômoda: as grandes potências não estavam preparadas para sustentar um conflito prolongado.

A guerra na Ucrânia acelerou esse choque de realidade. O consumo diário de munições de artilharia, mísseis, foguetes e sistemas antiaéreos atingiu níveis que excedem em muito a capacidade de reposição da maioria dos países ocidentais. Estoques considerados suficientes para meses mostraram-se adequados apenas para semanas. Linhas de produção, antes dimensionadas para tempos de paz, revelaram-se lentas, caras e excessivamente dependentes de cadeias globais frágeis.

Esse cenário desencadeou uma corrida silenciosa, porém intensa, por rearmamento e reindustrialização militar. Países europeus passaram a revisar doutrinas, contratos e modelos de aquisição. Os Estados Unidos, mesmo com a maior base industrial de defesa do mundo, enfrentam gargalos na produção de munições críticas. A Rússia, por sua vez, reorientou sua economia para um modelo de esforço de guerra prolongado, priorizando volume, simplicidade e rapidez na produção.

O ponto central desse debate não é apenas quantidade, mas sustentabilidade. A guerra moderna mostrou que tecnologia de ponta não elimina a necessidade de massa. Sistemas avançados são essenciais, mas eles falham, são abatidos e precisam ser substituídos. Mísseis de alto valor unitário não podem ser a única resposta quando o adversário aceita perdas e opera com lógica de desgaste.

A crise de munições revelou também um problema estrutural: a terceirização excessiva da soberania industrial. Muitos países descobriram que dependem de poucos fornecedores, localizados fora de seu território, para itens críticos de defesa. Em um cenário de conflito ampliado, essas cadeias se tornam vulneráveis a pressões políticas, sanções, bloqueios logísticos e simples incapacidade de atender à demanda simultânea de vários clientes.

Esse movimento está redefinindo prioridades estratégicas no mundo. Fábricas estão sendo reabertas, contratos de longo prazo assinados e legislações revistas para permitir produção acelerada. A lógica da eficiência econômica cede espaço à lógica da resiliência estratégica. Produzir mais caro dentro de casa passa a ser visto como um seguro nacional, não como desperdício.

A discussão também expõe uma mudança doutrinária profunda. Durante anos, forças armadas foram moldadas para operações expedicionárias, intervenções limitadas e conflitos assimétricos. Hoje, o foco retorna para a defesa territorial, a capacidade de absorver choques prolongados e a manutenção do poder de combate ao longo do tempo. Quem não consegue sustentar o esforço perde relevância estratégica, independentemente da sofisticação inicial de seus meios.

Para países fora do centro dos grandes conflitos, essa transformação não é um problema distante. Ela redefine alianças, fluxos de tecnologia, preços e disponibilidade no mercado internacional de defesa. A competição por munições, sistemas e componentes tende a se intensificar, deixando países sem base industrial própria em posição ainda mais vulnerável.

O caso brasileiro se insere nesse contexto de forma quase automática. O Brasil não enfrenta hoje uma ameaça militar convencional imediata, mas vive em um mundo onde a capacidade de dissuasão voltou a ser medida também pela prontidão industrial. A dependência externa para munições, componentes críticos e sistemas estratégicos expõe fragilidades que só se manifestam plenamente em momentos de crise, quando já é tarde para reagir.

A guerra industrial voltou ao centro do tabuleiro global. Não como um resquício do passado, mas como uma realidade incontornável do presente. Ignorar esse movimento é apostar que os conflitos do futuro seguirão regras que já deixaram de existir. Em um mundo cada vez mais instável, quem não produz, não sustenta e não se adapta rapidamente corre o risco de descobrir sua fragilidade apenas quando for colocado à prova.

Nesse cenário, o debate brasileiro sobre defesa precisa amadurecer com urgência. O Brasil é uma potência regional, detém uma das maiores economias do mundo e possui um território vasto, rico em minérios estratégicos, recursos energéticos, água doce e biodiversidade. Esses ativos não apenas sustentam o desenvolvimento nacional, como também despertam crescente interesse e cobiça no cenário internacional, especialmente em um mundo pressionado por escassez, transição energética e disputas geopolíticas.

Apesar disso, a capacidade nacional de defesa permanece aquém da responsabilidade estratégica que o país carrega. Investir na Base Industrial de Defesa não é um luxo nem uma escolha ideológica, mas uma necessidade estrutural. Ampliar a capacidade de produção de munições, sistemas, sensores e plataformas, fortalecer cadeias produtivas nacionais e garantir autonomia mínima em itens críticos é parte essencial da soberania.

A ausência de investimentos consistentes cria uma contradição perigosa: um país com enorme relevância geopolítica, vastos recursos estratégicos e influência regional, mas com capacidade limitada de proteger seus próprios interesses em um ambiente internacional cada vez mais competitivo e imprevisível. Defesa não se constrói em ciclos eleitorais, nem se improvisa em momentos de crise. Ela exige planejamento de longo prazo, continuidade e compreensão de que dissuasão começa muito antes do conflito.


por Angelo Nicolaci


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2 comentários:

  1. Um governo é responsável por manter a soberania externa e a democracia interna do seu país.Quando tivermos um que assuma essa responsabilidade é que poderemos pensar nisso…

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  2. Informações sensíveis deixam preocupações que deveriam despertar algumas ações de estado: o Brasil tem no máximo a capacidade de combate full contra uma ameaça estrangeira fora da América do Sul de 15 minutos no máximo. No mesmo cenário a Venezuela tem apenas 5 minutos de combate usando todo seu arsenal que estão em condições operacionais. Os paióis de munições aqui é lá são obsoletos e fora da validade operacional. Material velho nas categorias D e E. Mesmo assim é certo que não haverão políticas e nem investimentos nessa área.

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